domingo, 20 de junho de 2010


A IDENTIDADE HUMANO-DIVINA DO MESTRE


Y sucedió que mientras él estaba orando a solas, se hallaban con él los discípulos y él les preguntó: «¿Quién dice la gente que soy yo?»

Jesus anunciando a mensagem do Reino de Deus sente uma necessidade constante de dialogar com o Pai. Por isso, recolhe-se num lugar retirado, silencioso, para fazer esta experiência de intimidade, de diálogo amoroso com o Pai.

Este encontro narrado por Lucas tem uma peculiaridade: Jesus faz uma catequese orante. Ele deseja que seus discípulos percebam o nexo indissolúvel existente entre a sua pessoa e a mensagem que anuncia. Um outro ensinamento que deseja passar aos seus discípulos é que não existe o discípulo separado, ausente da vida do Mestre: aquilo que é importante para Ele, deve ser também importante para seus seguidores.

Através da pergunta que Jesus faz aos discípulos: “Que dizem o povo que eu sou?”, pretende averiguar a consciência que eles possuem da sua verdadeira identidade depois de um determinado tempo de convivência com Ele. A metodologia adotada por Jesus é aquela do confronto: vejamos o que o povo diz para ver se tem alguma relação com a experiência que estão fazendo individualmente e como grupo, ou seja, Jesus quer saber se os seus discípulos mais íntimos estão sendo capazes de ir além dos sinais que realiza e perceber a sua verdadeira identidade de Filho de Deus, salvador da humanidade.

Ellos respondieron: «Unos, que Juan el Bautista; otros, que Elías; otros, que un profeta de los antiguos había resucitado.»

É interessante observar que a resposta é coletiva. O verdadeiro evangelizador consegue perceber e ajudar a comunidade a purificar o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus Cristo. Vivemos hoje essa dificuldade de compreender a missão e a pessoa de Jesus Cristo. A infinidade de religiões e seitas que baseiam seus ensinamentos no Evangelho de Cristo apresenta para os seus seguidores uma imagem de Cristo que procura atender mais aos interesses das igrejas e grupos religiosos do que

Certamente Jesus fica desapontado com a resposta. Parece que o povo não consegue desvinculá-Lo das tradições religiosas judaicas, dos ditames da Antiga Lei. O povo olha para Jesus com os olhos no passado comparando sua missão e pessoa com outros líderes significativos da história da salvação judaica.

Jesus não se sente incomodado ao ser comparado com estes personagens bíblicos, mas deseja que seus discípulos estejam com o coração aberto para acolher a nova revelação, o tempo presente no qual Deus está operando a salvação da humanidade.

Les dijo: «Y vosotros, ¿quién decís que soy yo?» Pedro le contestó: «El Cristo de Dios.»

A pergunta de Jesus obriga os discípulos a repensarem a própria identidade religiosa: “Será que vocês estão pensando iguais a eles?” Em outras palavras, Jesus os convida a redefinirem suas vidas: “O que é que eu significo para vocês? O que vocês esperam de mim?”. O texto nos aponta para um contexto de profissão eclesial: o discípulo de Jesus vive a sua fé na comunidade eclesial. Na boca de Pedro é consumada uma profissão de fé: “Tu és o Filho de Deus”, que sintetiza todo o esforço que Jesus fez para que o grupo perceba o aspecto fundamental da existência daquela pequena comunidade. Está com Jesus, ser seu discípulo, é descobrir na sua pessoa, nos seus gestos e palavras a sua natureza humana e divina. Ele é o Filho de Deus feito homem.

Pero les mandó enérgicamente que no dijeran esto a nadie.

Falar deste mistério requer da comunidade uma caminhada, uma experiência com o Cristo ressuscitado. Esta verdade vivenciada no dia a dia com Jesus é uma verdade de fé. Não é uma conjectura cientifica ou postulado de teorias que necessitam de comprovação laboratorial. Cada discípulo fará o seu caminho por etapas de compromisso com o Evangelho de Cristo. A verdade do “Cristo Filho de Deus” não deve ser imposta a ninguém, mas exige todo um caminho pedagogicamente estruturado porque é um ensinamento que conduz à vida, à libertação do homem e de todo o homem.

Dijo: «El Hijo del hombre debe sufrir mucho, y ser reprobado por los ancianos, los sumos sacerdotes y los escribas, ser matado y resucitar al tercer día.»

Jesus deseja afastar dos seus discípulos uma concepção mágica de salvação triunfalista: Ele sendo Filho de Deus tudo pode realizar através do seu poder divino. A lógica divina não percorre o mesmo itinerário da lógica humana. Para salvar a humanidade Jesus necessita ser plenamente humano: necessita sofrer, morrer como todos os seres humanos; e ao mesmo tempo, ser plenamente divino, ressuscitar e reconstruir a vida em plenitude.

Decía a todos: «Si alguno quiere venir en pos de mí, niéguese a sí mismo, tome su cruz cada día, y sígame.

O discípulo de Jesus é anunciador desta verdade que causa escândalo e rejeição por parte dos judeus. E destes o Mestre exige quatro atitudes fundamentais:

- só podemos seguir Jesus na liberdade;

- devemos reconhecer que Ele é o Mestre e nós os discípulos;

- a capacidade de renunciar a si mesmo para assumir incondicionalmente sua missão;

- assumir a cruz de cada dia como exigência de fidelidade ao compromisso evangelizador;

- e segui-Lo no seu modo de ser todo de Deus e todo dos homens.

Porque quien quiera salvar su vida, la perderá; pero quien pierda su vida por mí, ése la salvará


* Texto da La Biblia de Jerusalén (Lucas 9,18-24)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O ROSTO DE DEUS PAI REVELADO EM JESUS CRISTO


"Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18).


Hoje assistimos um fenômeno peculiar da pós-modernidade em âmbito religioso: de um lado, o capitalismo materialista coloca a felicidade e realização da pessoa humana exclusivamente na posse dos bens materiais; e do outro lado, aumenta o número de pessoas à procura dos bens espirituais, e experiências religiosas. Se constata que estas pessoas ao buscarem uma experiência mais profunda com o transcendente, na maioria das vezes, ficam desnorteadas diante as dificuldades de escolher qual experiência fazer, que deus se aproximar, que religião assumir. Não é fácil no mundo de hoje definir quem é Deus e onde encontrá-lo para conhecê-lo: como encontrar Deus, como perceber o seu verdadeiro rosto no meio de tantos deuses e na confusão dos milhares de templos religiosos? Afinal, a problemática pode ser resumida na seguinte pergunta: Que Deus estou procurando?

Para o cristão, a Bíblia é o lugar privilegiado da experiência de Deus. No Antigo Testamento, Deus escolhe um povo e aos poucos vai se revelando na história deste povo eleito. Mas é somente no Novo Testamento, através de Jesus Cristo que Deus revela a seu verdadeiro rosto: um Deus Trino - Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -, escândalo para os judeus, e insignificância especulativa para os gregos.

Proposta de um texto para reflexão:

"Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer. Tudo o que ele fizer, fará igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. E lhe mostrará ainda coisas maiores que estas, das quais ficareis maravilhados. Como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, também o Filho dá vida a quem quer. Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida. Não posso fazer nada por mim mesmo. Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. As obras que o Pai me deu para cumprir eu as faço e dão testemunho que o Pai me enviou. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, nem conservais em vós sua palavra porque não credes naquele que me enviou. Percorreis as Escrituras, pensando ter nelas a vida eterna, mas elas também dão testemunho de mim, e vós não quereis vir a mim para terdes a vida!". (Jo 5, 19s)

A experiência paterna de Jesus:

 Ele nos fala do Pai a partir de sua íntima relação com Ele: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18). "Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus" (Jo 3,2). Jesus é a face humana do Pai: "Ninguém jamais viu o Pai, senão aquele que veio de Deus" (Jo 6,46).

 Jesus tem consciência de ser uno com o Pai: "Eu e o Pai somos um".

 Jesus se reconhece como Filho de Deus, Cordeiro de Deus. Tem plena consciência de sua filiação divina. Reconhecendo esta filiação testemunha João Batista: "Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus" (Jo 1,34).

 Ele fala constantemente com o Pai na oração, na solidão.

 Jesus é zeloso das coisas do Pai: "Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes" (Jo 2,16).

 Ele age sob a autoridade do Pai: "Meu Pai continua agindo ... "(Jo 5,17). "Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6,38).

 Jesus é o Filho amado do Pai: Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único para salvar o mundo.

 Ele recebe do Pai uma missão: dá aos homens a vida eterna (cf. Jo 3,16). E a sua missão não é condenar, mas salvar (cf. Jo 3,17).

 Jesus se sente amado pelo Pai: "O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas" (Jo 3,35).

O rosto paterno de Deus que Jesus nos revela:

1. Um Pai que tem uma predileção especial para com os doentes, os pobres, os marginalizados.

2. Um Pai que condena o pecado e deseja a salvação do pecador.

3. Um Pai preocupado com o destino de seus filhos.

4. Um Pai que tem um projeto de vida para seus filhos: a construção do Reino na história dos homens.

5. Um Pai que deve ser adorado pelos filhos: "Nós adoramos o que conhecemos" (Jo 4,24). Ele deseja ser adorado em espírito e verdade (cf. Jo 4,24).

6. Um Pai que reúne os filhos ao redor da mesa para partilhar o pão nosso de cada dia.

7. Um Pai que congrega os seus filhos em comum-unidade (Igreja).

8. Um Pai que alimenta os filhos oferecendo do seu próprio pão: "Meu Pai é que vos doa, do céu, o pão verdadeiro. O pão de Deus é aquele que desceu do céu e doa a vida ao mundo" (Jo 6,32b-33).

9. Um Pai que participa da dor e do sofrimento da humanidade, das suas angústias e esperanças.

10. Um Pai que faz questão em dialogar intimamente com cada um de seus filhos no silêncio da oração.

Deus Pai é para Jesus:

 um Pai misericordioso.

 um Pai que confia nos seus filhos.

 um Pai que ama infinitamente os filhos e por eles tudo faz.

 um Pai paciente e persistente, que espera a conversão dos filhos.

 um Pai presença na vida dos filhos.

 um Pai vigilante e zeloso.

 um Pai exigente.

 um Pai que ama a justiça e a verdade.

 um Pai que não discrimina, acolhe todos.

 um Pai que deseja ver todos os seus filhos unidos formando uma só família.

 um Pai que envolve todos os seus filhos no seu projeto de salvação.

 um Pai que conhece as necessidades de seus filhos.

 um Pai que é plena comunhão trinitária.

Convite à reflexão e meditação:

• Texto proposto: Jo 5, 19-24.

• Questionamentos:

 Qual a experiência que fiz até hoje da paternidade de Deus?

 Que traços da paternidade de Deus percebo mais marcante na minha espiritualidade?

 Sinto-me verdadeiramente amado por Deus Pai?

 Sou apaixonado por Deus Pai como era Jesus?

 Quais as experiências que aceitei a correção amorosa do Pai e que foi para mim conversão, libertação?

 Como vivo na minha comunidade a dimensão da fraternidade como filhos e filhas do mesmo Pai?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

JESUS SENHOR DA VIDA E O PODER DO MAL


A questão da origem do mal ocupou um lugar de destaque no imaginário das sociedades antigas até os dias de hoje. Desde que o homem toma consciência da sua humanidade ele busca compreender essa realidade que ao mesmo tempo transcende sua compreensão e é algo que está presente no mais intimo de sua existência. O homem não pode negar e nem sabe como dominar o mistério do mal. É uma força que está para além de suas possibilidades, de seu poder em dominar as forças ocultas da natureza.

É interessante observar que todo discurso religioso não pode fugir da problemática do confronto entre o bem e mal. A perspectiva teológica do evangelho essênico da paz coloca a problemática da existência do mal e de suas conseqüências negativas para o seu humano, de modo particular para o crente, diante da ação evangelizadora e salvífica de Jesus Cristo:

O texto:
“E então muitos enfermos e paralíticos foram a Jesus, perguntando-lhe: “Se tudo sabes, diga-nos: porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens? Mestre, cura-nos, para que nos façamos fortes e não tenhamos que viver por mais tempo nosso sofrimento. Sabemos que em teu poder está curar todo tipo de enfermidade. Livra-nos de Satã e de todos seus grandes males. Mestre, tem compaixão de nós.”(*)

O texto tenta expor uma interpretação teológica da questão crucial sobre o mal: quem é o autor do mal? Qual a origem do mal? Qual a entidade que representa e mantém o mal agindo no mundo? Quem pode exterminar o mal e deter sua influência? Todas estas questões estão sintetizadas na pergunta dos enfermos e paralíticos: “Porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens?”

Refletindo sobre o evangelho:

E então muitos enfermos e paralíticos foram a Jesus
O evangelho define aqui Jesus como o homem do encontro com os sofredores (enfermos e paralíticos). Ele tem consciência que sua missão é aquela de ir ao encontro, de está aberto sem restrições para os encontros imprevistos, não agendados. Jesus é alguém que deixa espaço para que o seu interlocutor possa tomar a iniciativa do diálogo. Não se apresenta como aquele que já tem respostas prontas, milagres encomendados, fórmulas mágicas e eficazes que resolvem tudo. Jesus está ao alcance dos pobres e sofredores. Ele apresenta-se como um caminho aberto para os homens em direção ao amor misericordioso do Pai.

perguntando-lhe: “Se tudo sabes,
O interlocutor de Jesus inicia o diálogo partindo de um pressuposto: Jesus é mestre de sabedoria, conhece todas as coisas visíveis e invisíveis. Diríamos hoje que ele considera Jesus como alguém que tem um profundo conhecimento das coisas terrenas e espirituais. Portanto, como mestre tem autoridade para opinar sobre qualquer situação humana. Ele conhece os mais profundos anseios, pensamentos, segredos do coração humano.

diga-nos: porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens?
Diante de Jesus procuramos respostas que revelem o homem para ele mesmo: penetrar no mistério de Jesus e de sua missão é adentrar no mistério da existência humana.
Os questionamentos propostos pelos interlocutores de Jesus tocam a essência do mistério do sofrimento humano: o que fizemos de errado, que pecado cometemos para merecer este castigo (penosas calamidades)? Por que devemos viver uma realidade de exclusão e sermos tratados de modo diferente dos outros homens, se na realidade somos todos pecadores? Os enfermos e paralíticos querem sinceramente compreender a sua realidade de deficiência corporal diante da perspectiva da justiça divina. Desejam entender a relação entre as calamidades corporais e a dimensão espiritual destes fatos. Jesus não entra na discussão de causa e efeito do sofrimento.

Mestre, cura-nos,
O poder taumatúrgico de Jesus é incontestável. Ele credencia a sua missão de Filho de Deus através dos sinais que realiza restabelecendo a saúde aos enfermos, e deste modo demonstra a força do seu poder.

para que nos façamos fortes e não tenhamos que viver por mais tempo nosso sofrimento.
Eles querem compreender quem é o responsável que define o tempo que deve durar o sofrimento. Jesus é a esperança de todo sofredor. Só Ele tem o poder de tornar o fraco em forte, o enfermo em são. Ninguém supera ou enfrenta o sofrimento sem Jesus.

Sabemos que em teu poder está curar todo tipo de enfermidade. Livra-nos de Satã e de todos seus grandes males.
Satanás é reconhecido como o autor de todos os males. Deus não é culpado pelo mal que existe no mundo dos homens. Só o homem livre do poder de Satanás pode experimentar a alegria de vida feliz.

Mestre, tem compaixão de nós.”
Diante de Jesus a confissão de fé “tem compaixão de nós” expressa que o caminho de libertação do mal requer da parte do crente a atitude de humildade e confiança absoluta no poder salvador do Filho de Deus. O crente si sente totalmente impotente como ser humano diante do poder do mal. Recorrer à força divina para aplacar a força do mal é a única alternativa possível. Se Deus não vier em socorro do sofredor ele será fatalmente atraído, consumido pelo mal. O coração amoroso do Filho de Deus acolhe todo sofredor para libertá-lo de todos os males.

___________

(*) Este texto faz parte do conhecido evangelho essênico da paz. Este antigo manuscrito se conserva em aramaico, na Biblioteca do Vaticano, e em antigo eslavo na Biblioteca Real dos Habsburgo, atualmente propriedade do governo austríaco. Os antigos textos em aramaico datam do primeiro século depois de Cristo, enquanto que a versão em eslavo é uma tradução literal do texto em aramaico.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

MISERERE


Miserere de nós, Senhor,
se assistimos a tua flagelação
aterrorizados e com medo de sermos
identificados como teus discípulos.

Miserere mei, Deus, secundum misericordiam tuam; et secundum multitudinem miserationum tuarum dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco, et peccatum meum contra me est semper.
Tibi, tibi soli peccavi et malum coram te feci, ut iustus inveniaris in sententia tua et aequus in iudicio tu


Miserere de nós, Senhor,
se acompanhamos Pedro
depois da tua prisão no monte das Oliveiras,
e covardemente afirmamos juntos que não ti conhecíamos.

Ecce enim in iniquitate generatus sum, et in peccato concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem in corde dilexisti et in occulto sapientiam manifestasti mihi.
Asperges me hyssopo, et mundabor; lavabis me, et super nivem dealbabor.
Audire me facies gaudium et laetitiam, et exsultabunt ossa, quae contrivisti.
Averte faciem tuam a peccatis meis et omnes iniquitates meas dele.

Miserere de nós, Senhor,
se ficamos apenas compadecidos,
com os olhos cheios de lágrimas,
vendo o teu corpo ensaguentado
e tuas forças debilitadas
e não fomos capazes de ti ajudar
a carregar a pesada cruz no caminho do Calvário.

Cor mundum crea in me, Deus, et spiritum firmum innova in visceribus meis.
Ne proicias me a facie tua et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui et spiritu promptissimo confirma me.
Docebo iniquos vias tuas, et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae, et exsultabit lingua mea iustitiam tuam.

Miserere de nós, Senhor,
se negamos colocar no teu cálice de redenção
a nossa pequena gota de sangue
e se ficamos petrificados quando ouvimos
o teu grito de abandono: “Abba, porque me abandonaste?”.

Domine, labia mea aperies, et os meum annuntiabit laudem tuam.
Non enim sacrificio delectaris; holocaustum, si offeram, non placebit.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus; cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion, ut aedificentur muri Ierusalem
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes et holocausta; tunc imponent super altare tuum vitulos.(Salmo 51)

Miserere se muitas vezes duvidamos
da tua e da nossa Ressurreição.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O ROSTO DE DEUS PAI REVELADO EM JESUS CRISTO



"Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18).

Hoje assistimos um fenômeno peculiar na pós-modernidade em âmbito religioso: de um lado, o capitalismo materialista coloca a felicidade e realização da pessoa humana exclusivamente na posse dos bens materiais; e do outro lado, aumenta o número de pessoas à procura dos bens espirituais, religiosos. Se constata que estas pessoas ao buscarem uma experiência mais profunda com o transcendente, na maioria das vezes, ficam desnorteadas diante as dificuldades de escolher qual experiência fazer, que deus se aproximar, que religião assumir. Não é fácil no mundo de hoje definir quem é Deus e onde encontrá-lo para conhecê-lo: como encontrar Deus, perceber o seu verdadeiro rosto no meio de tantos deuses e na confusão dos milhares de templos religiosos? Afinal, a problemática se resume na seguinte pergunta: Que Deus estou procurando?

Para o cristão, a Bíblia é o lugar privilegiado da experiência de Deus. No Antigo Testamento, Deus escolhe um povo e aos poucos vai se revelando na sua história. Mas é somente no Novo Testamento, através de Jesus Cristo que Deus revela a seu verdadeiro rosto: um Deus Trino - Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -, escândalo para os judeus, e insignificância especulativa para os gregos.

Proposta de um texto para reflexão:
"Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer. Tudo o que ele fizer, fará igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. E lhe mostrará ainda coisas maiores que estas, das quais ficareis maravilhados. Como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, também o Filho dá vida a quem quer. Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida. Não posso fazer nada por mim mesmo. Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. As obras que o Pai me deu para cumprir eu as faço e dão testemunho que o Pai me enviou. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, nem conservais em vós sua palavra porque não credes naquele que me enviou. Percorreis as Escrituras, pensando ter nelas a vida eterna, mas elas também dão testemunho de mim, e vós não quereis vir a mim para terdes a vida!". (Jo 5, 19s)

A experiência paterna de Jesus:

 Ele nos fala do Pai a partir de sua íntima relação com Ele: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18). "Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus" (Jo 3,2). Jesus é a face humana do Pai: "Ninguém jamais viu o Pai, senão aquele que veio de Deus" (Jo 6,46).

 Jesus tem consciência de ser uno com o Pai: "Eu e o Pai somos um".

 Jesus se reconhece como Filho de Deus, Cordeiro de Deus. Tem plena consciência de sua filiação divina. Reconhecendo esta filiação testemunha João Batista: "Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus" (Jo 1,34).

 Ele fala constantemente com o Pai na oração, na solidão.

 Jesus é zeloso das coisas do Pai: "Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes" (Jo 2,16).

 Ele age sob a autoridade do Pai: "Meu Pai continua agindo ... "(Jo 5,17). "Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6,38).

 Jesus é o Filho amado do Pai: Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único para salvar o mundo.

 Ele recebe do Pai uma missão: dá aos homens a vida eterna (cf. Jo 3,16). E a sua missão não é condenar, mas salvar (cf. Jo 3,17).

 Jesus se sente amado pelo Pai: "O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas" (Jo 3,35).

O rosto paterno de Deus que Jesus nos revela:

1. Um Pai que tem uma predileção especial para com os doentes, os pobres, os marginalizados.

2. Um Pai que condena o pecado e deseja a salvação do pecador.

3. Um Pai preocupado com o destino de seus filhos.

4. Um Pai que tem um projeto de vida para seus filhos: a construção do Reino na história dos homens.

5. Um Pai que deve ser adorado pelos filhos: "Nós adoramos o que conhecemos" (Jo 4,24). Ele deseja ser adorado em espírito e verdade (cf. Jo 4,24).

6. Um Pai que reúne os filhos ao redor da mesa para partilhar o pão nosso de cada dia.

7. Um Pai que congrega os seus filhos em comum-unidade (Igreja).

8. Um Pai que alimenta os filhos oferecendo do seu próprio pão: "Meu Pai é que vos doa, do céu, o pão verdadeiro. O pão de Deus é aquele que desceu do céu e doa a vida ao mundo" (Jo 6,32b-33).

9. Um Pai que participa da dor e do sofrimento da humanidade, das suas angústias e esperanças.

10. Um Pai que faz questão em dialogar intimamente com cada um de seus filhos no silêncio da oração.

Deus Pai é para Jesus:

 um Pai misericordioso.

 um Pai que confia nos seus filhos.

 um Pai que ama infinitamente os filhos e por eles tudo faz.

 um Pai paciente e persistente, que espera a conversão dos filhos.

 um Pai presença na vida dos filhos.

 um Pai vigilante e zeloso.

 um Pai exigente.

 um Pai que ama a justiça e a verdade.

 um Pai que não discrimina, acolhe todos.

 um Pai que deseja ver todos os seus filhos unidos formando uma só família.

 um Pai que envolve todos os seus filhos no seu projeto de salvação.

 um Pai que conhece as necessidades de seus filhos.

 um Pai que é plena comunhão trinitária.

Convite à reflexão e meditação:

• Texto proposto: Jo 5, 19-24.

• Questionamentos:

Qual a experiência que fiz até hoje da paternidade de Deus?

Que traços da paternidade de Deus percebo mais marcante na minha espiritualidade?

Sinto-me verdadeiramente amado por Deus Pai?

Sou apaixonado por Deus Pai como era Jesus?

Quais as experiências que aceitei a correção amorosa do Pai e que foi para mim conversão, libertação?

Como vivo na minha comunidade a dimensão da fraternidade como filhos e filhas do mesmo Pai?

quarta-feira, 24 de março de 2010

PROSPECTIVAS DA IGREJA COMO POVO DE DEUS NA AMÉRICA LATINA (Parte III)


2. UMA IGREJA PORTADORA DE ESPERANÇA E VIDA PARA OS EXCLUÍDOS E MARGINALIZADOS

A América Latina parece que já se cansou de ser chamada o Continente do futuro. Tudo que os homens e a mulheres latino-americanos almejam está sempre projetado no futuro; e este futuro (já se passaram 500 anos) jamais chega a tornar-se tempo presente. A exclusão e a marginalidade são o tempo presente para milhões de filhos e filhas da Pátria-Mãe.

A Igreja diante desta constatação de exclusão e marginalidade é chamada a ser portadora de esperança e vida no Continente. Ser portadora da esperança e da vida significa optar por um projeto de promoção humana que priorize as questões da educação, da saúde, dos respeito aos direitos humanos, do exercício da cidadania, da habitação e do trabalho.

Assumindo esta postura, a Igreja-profecia será para estes milhões de seres humanos, que são filhos e filhas de Deus, a portadora da fé que transforma a realidade histórica e da esperança que não engana. A esperança cristã liberta e coloca o ser humano no horizonte da luta pela realização dos novos céus e nova terra. Ela será a portadora da vida que vence toda morte; da vida que irrompe transformando a velha cansada e explorada terra ameríndia em terra de todos, em terra-vida-mãe.

2.1. IGREJA POVO DE DEUS CONVOCADO PELO DEUS DA VIDA PARA DEFENDER A VIDA

Todos os anos as revistas especializadas publicam os índices de mortalidade dos países pobres do mundo. Milhões de pessoas continuam morrendo de fome, de desnutrição, de doenças, de contaminação. Este extermínio silencioso parece passar despercebido aos olhos dos grandes capitalistas mundiais. Porém, este fato não é ocasional, «coisa do destino». A morte destes seres humanos é cuidadosamente planejada; não é a morte natural. É uma morte desejada, premeditada para atender os objetivos dos projetos capitalistas de concentração do capital nas mãos de uma minoria da humanidade, que não deseja repartir os seus bens.

As campanhas realizadas em alguns países para esterilizar as mulheres, os movimentos pró-aborto, o pseudo-problema do crescimento populacional, são facetas de um mesmo projeto que coloca os interesses econômicos e sociais acima do valor da vida humana.

A Igreja continuará lutando e sofrendo para defender a vida humana dos milhões de homens e mulheres latino-americanos que continuam a serem vítimas dos projetos sócio-econômicos que defendem apenas a vida de um pequeno grupo social poderoso e privilegiado.

2.2. IGREJA POVO DE DEUS ANUNCIADOR DE UMA NOVA CULTURA DA SOLIDARIEDADE E DA CONVIVÊNCIA ENTRE OS POVOS

O Povo de Deus tem a responsabilidade de anunciar profeticamente uma nova cultura de solidariedade que vise implementar as relações entres os povos latino-americanos na superação de seus principais problemas sociais e econômicos.

A cultura da solidariedade é caracterizada por uma sensibilidade para partilhar e assumir as causas que defendem a vida dos mais fracos e pequenos. A educação que a Igreja é chamada a promover no Continente deve priorizar: o valor da união da força dos pobres, dos excluídos e marginalizados. Isolado ninguém é capaz de conquistar nada; a percepção e sensibilidade para com o sofrimento dos pobres. O clamor por justiça dos pobres não deve tapar os nossos ouvidos, mas abrir o nosso coração, para tornar o seu clamor, o nosso clamor; a sua dor, a nossa dor; os seus sofrimentos, o nosso sofrimento; a conscientização da necessidade de todos participarmos da construção da nova sociedade latino-americana.

A convivência pacífica entre os diferentes povos ameríndios depende de um processo educativo que enfatize os valores que unem os povos. Irmanados em Jesus Cristo, os homens e as mulheres da grande Pátria-Mãe são chamados a viver a fraternidade, respeitando as suas diversidades e buscando em comum as respostas para os seus problemas.

2.3. UMA IGREJA COMPROMETIDA COM A LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM LATINO-AMERICANO

A Igreja, durante os anos ‘70 e ‘80, foi acusada em alguns Países de ser muito politizada e de haver descuidado demasiadamente da dimensão espiritual do homem a quem pretendia salvar, engajando-se no processo político-histórico da construção de uma nova sociedade. Para muito a Igreja deveria apenas cuidar de assuntos espirituais, já que esta é a sua especialidade, deixando para outras entidades e organizações civis cuidarem com mais competência dos assuntos mundanos. Porém, a Igreja é consciente de que para ser fiel à missão de libertação que Jesus lhe confiou deve trabalhar pela promoção integral do homem.

3. A PROMOÇÃO HUMANA

Sabemos que no Continente dos empobrecidos não basta dá comida aos famintos, assumindo uma atitude assistencialista que tende a perpetuar a sua condição de dependência, que eles estarão automaticamente promovidos, dignificados. A questão da fome e da miséria do povo ameríndio jamais será resolvida com a doação de cestas básicas, campanhas de arrecadação de alimentos ou com presentes esporádicos de políticos, por mais bem intencionados que sejam. Trata-se de uma estrutura de empobrecimento onde os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos ficam cada vez mais ricos.

3.1. EXPERIÊNCIA DE FÉ E VIDA ECLESIAL COMO SERVIÇO DE AMOR AO HOMEM LATINO-AMERICANO

O binômio fé e vida, promulgado no documento da Catequese Renovada, provocou uma séria reflexão da ligação que deve existir entre a teoria e a prática eclesial. A fidelidade ao projeto libertador de Jesus de Nazaré passa necessariamente pela coerência entre aquilo que a Igreja diz e aquilo que ela faz.

O mandamento do amor: Amar o próximo como a si mesmo deve impregnar todas as relações entre a comunidade eclesial e a sociedade. Deste modo, a ação pastoral da Igreja tem sua fonte no amor que Deus tem pela criatura humana. Amar o homem e a mulher pobres e excluídos latino-americanos significa amar o próprio Deus. Tudo o que a Igreja faz em prol deles é a Deus que o faz. O amor desconhece as barreiras impostas pelas convenções e regras sociais que estabelecem quem precisa ser amado.

3.2. O AMOR PREDILETO PELOS POBRES

Na América Latina aqueles que a Igreja deve manifestar sua predileção, o seu amor, são os pobres, os fracos, os pequenos, os excluídos e marginalizados. Todas as suas iniciativas pastorais visam a promoção humana daqueles clamam a Deus libertação. Deste modo ela manifesta o amor libertador e salvador de Jesus Cristo na história ameríndia.

Cabe aos cristãos na América Latina vivenciar com maior radicalidade as exigências do amor: na construção de comunidades fraternas e irmãs umas das outras; vigiar para que suas ações de promoção social não acomodem os governos, e os libere de suas responsabilidades sociais; mostrar que o amor é o único sentimento que pode unir os homens para juntos se libertarem de toda forma de escravidão e de pecado; testemunhar com sua práxis eclesial que podemos manter relações sociais baseadas na fraternidade e no amor; trabalhar dia e noite para a construção do Reino que começa aqui e agora, a civilização do amor.

4. PROSPECTIVAS PARA O FUTURO DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA

Muitos estudiosos da realidade eclesial da América Latina apontam para o Continente, que tem o maior percentual de católicos do mundo, como a Igreja do futuro. Caberá a essa Igreja configurar o modo de ser cristão no mundo. Sem dúvida nenhuma é necessário valorizar os dados deste diagnóstico estatístico, mas o fator decisivo que definirá a contribuição da experiência do Povo de Deus à Igreja certamente não deverá ser averiguado no elemento quantitativo.

O rosto pobre do Povo de Deus que caminha na América Latina, o seu modo de viver em comunidade, sua voz profético-libertadora estão entre os elementos eclesiológicos incorporados na reflexão eclesiológico que ajudará a Igreja como Povo de Deus, sacramento de salvação, a se manter fiel ao anúncio do Reino de Deus.

4.1. A IGREJA COMUNIDADE DA SALVAÇÃO

Na sociedade pós-moderna sabemos que a Igreja não é a única instância religiosa credenciada a oferecer a salvação aos seus fiéis. Existe uma imensa vastidão de grupos religiosos e de pessoas que prometem e vendem a salvação, a cura de todos os males, a utopia do mundo sem males. No meio deste cenário surge o questionamento: como apresentar o Povo de Deus como comunidade da salvação? Haveria por acaso salvação «mais segura» no Povo de Deus do que na salvação oferecida por outros grupos religiosos? O que, de fato, significa salvar-se na América da cruz e da espada, do sangue e da impunidade, da violência, da injustiça e do desrespeito à vida?

Alguns grupos religiosos apresentam a salvação como uma etapa conclusiva da existência humana, situada para o além túmulo, como recompensa dos esforços humanos e das obras boas. Outros, defendem a salvação-conquista como fruto do esforço individual de observância da Lei, dos Mandamentos. A Igreja na América Latina assume uma postura diferente destes grupos religiosos. Ela se apresenta aos homens e mulheres ameríndios como instrumento de salvação, consciente que a sua missão é dá continuidade à missão de Jesus Cristo, animada pelo Espírito Santo. Nesta perspectiva afirma o Sínodo dos Bispos: «O Espírito Santo, que guiou os passos de Jesus, é também hoje o primeiro evangelizador no novo Povo de Deus, trabalhando para congregar os que nunca receberam a Boa Nova e os homens e mulheres que se afastaram da fé cristã. Jesus continua oferecendo a salvação por meio do seu Espírito, durante o caminho da Igreja» (1).

4.1.1. A IGREJA COMO MOMENTO KAIROLÓGICO PARA OS HOMENS E MULHERES AMERÍNDIOS

Observamos que na história do povo hebraico a intervenção de Deus na sua história sempre foi assumida como um momento kairológico. A sua ação salvadora de Deus foi acolhida como ação educadora e libertadora do povo.

Na história do Povo de Deus que está na América Latina, a Igreja necessita ser acolhida como um momento kairológico de Deus. A Igreja não é uma instituição humana asseguradora e defensora da justiça, da igualdade, da fraternidade e de todos os valores éticos humanos. A sua existência é de iniciativa divina: continua na história dos homens a missão iniciada por Jesus Cristo, anunciando e manifestando o Reino de Deus. Portanto, «é preciso refletir sobre o modo como esta situação histórica afeta o Povo de Deus e também sobre a participação da Igreja que está na América no nascimento de uma nova civilização de justiça, de solidariedade e de amor» (2).

Este momento kariológico deve ser acolhido com um momento de manifestar todos os esforços para construir de verdade uma nova sociedade latino-americana baseada na justiça, na solidariedade entre seus diferentes povos e no amor que tudo renova e recria. Celebrar os 500 anos da Evangelização significa acolher a Nova Evangelização do Continente como um momento kairológico para o Povo de Deus.

4.1.2. O PARADIGMA DA SALVAÇÃO COMPREENDIDO COMO PROCESSO DE LIBERTAÇÃO DO CONTINENTE

A salvação para o Povo de Deus na América Latina é concebida como um processo de libertação que implica num esforço de aprofundar os dados da Revelação centralizada na pessoa e na missão de Jesus de Nazaré.

O conceito de salvação neste contexto histórico afasta qualquer interpretação de cunho fundamentalista e individualista tão marcadamente presente no universo das religiões da pós-modernidade. A salvação não é uma conquista que leva a um esperado triunfalismo do bem sobre o mal como numa batalha medieval, ou menos ainda, na auto-proclamação da vitória dos justos sobre os injustos, dos santos sobre os pecadores. A salvação não é um prêmio a ser concedido para os mais treinados e habilitados combatentes da fé cristã. Portanto, a salvação não pode ser reduzida a uma conquista do maior tesouro espiritual, a um pseudo-estado de perfeição espiritual.

O que significa salvar-se num Continente marcado pelo extermínio de milhões de seus filhos e filhas por causa da fome, da miséria, da violência e da marginalidade social? Certamente será difícil pensar num projeto de salvação que seja viabilizado pelo acúmulo de obras de caridade e de dias eternos de paz paradisíaca. Ou ainda no célebre ato de entrega a Jesus que o crente deve fazer para ser salvo professado nas igrejas e seitas pentecostais.

A salvação é um processo que envolve o homem e se encarnando na sua contingência histórico espaço-temporal. Portanto, acontece no aqui e agora da historicidade humana. Não é algo a ser conquista no paraíso eterno. A Igreja como Povo de Deus para salvar o homem e a mulher latino-americanos assume todos os seus processos de libertação: o processo educacional, através do qual o povo vai paulatinamente adquirindo a consciência de sua participação na construção de seu destino histórico; o processo político, que possibilita o cidadão a exercer a sua cidadania e tornar-se protagonista nas relações e condução da vida social; o processo econômico, no qual o povo é chamado a escolher modelos econômicos que garantam o desenvolvimento econômico sustentável, capaz de dar condições de vida mais digna para a maioria da população; o processo cultural, assegurar e defender seus valores, sua identidade de povo; e o processo religioso, aonde o povo vai descobrindo e distinguindo na sua vivência religiosa as experiências libertadoras da fé e as experiências escravizantes e exploradoras da fé.

Apresentar a salvação para o homem ameríndio é apresentar a proposta da construção do Reino de Deus anunciado e concretizado no seu Filho Jesus Cristo. O encontro com o pobre, com o sofredor, com o excluído social, é um encontro com o próprio Jesus Cristo é o fundamento no qual o Reino começa a acontecer na História.

Diante das reflexões acima expostas podemos enumerar algumas implicações salvíficas do anúncio do Reino na América Latina: a dignidade de vida para os empobrecidos; o respeito à vida do ser humano; a autonomia e soberania dos povos latino-americanos na gestão de suas pátrias; o resgate da história e da cultura de cada povo; a criação de relações econômicas mais justas entre os países latino-americanos e os blocos econômicos; a superação das desigualdades abismais entre pobres e ricos através de uma redistribuição das riquezas nacionais; a desmitização dos ídolos do capitalismo (o ter, o poder e o prazer).

O apelo evangélico, «arrependei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1,15), ressoa, não apenas como um desafio pastoral para os cristãos latino-americanos, mas como uma exigência de fidelidade ao discipulado de Jesus Cristo no processo de libertação e salvação para o Povo de Deus na América Latina.

4.2. A IGREJA COMUNIDADE DA MISSÃO

O conceito Povo de Deus revela a Igreja como a comunidade dos discípulos de Jesus convocada para ser uma comunidade missionária. «Ao adotar o conceito de povo de Deus, o Concílio fez da missão a própria razão de ser da Igreja, a sua grande novidade em relação ao antigo Israel. Dessa maneira renovou a teologia da missão dando-lhe o seu significado mais amplo que tinha perdido no decorrer dos séculos. Antes, a missão era vivida como realidade marginal, que se desenvolvia ao lado da vida da Igreja. Agora a missão às nações do mundo aparece como o movimento histórico que define o modo de ser da Igreja. O novo povo de Deus entra no mundo como missionário» (3).

Ser Povo de Deus é ser comunidade missionária, é ser participante da mesma missão de Jesus de Nazaré e dos seus Discípulos. A comunidade se reúne em nome de Jesus para evangelizar. Como comunidade assume as dificuldades, os desafios da missão.

4.2.1. UMA NOVA CONCEPÇÃO DA MISSIONARIDADE DA COMUNIDADE ECLESIAL: TODOS ENVIADOS PELO SENHOR DA HISTÓRIA

Durante vários séculos a América Latina foi evangelizada por padres e leigos religiosos missionários enviados pela Coroa portuguesa e espanhola. E criou-se no imaginário cultural-religioso do povo que missionário é alguém que vem de fora ou parte para anunciar o Evangelho em terras longínquas. O evangelizado não se percebia como missionário. O seu testemunho cristão resumia-se a frequentar as missas, participar das novenas e festas dos padroeiros e a reza o terço.

A nova concepção da missionaridade do Povo de Deus exige que a comunidade eclesial avalie a sua consciência missionária. Cada membro deve está comprometido com a ação evangelizadora da Igreja. Todos os membros do Povo de Deus são enviados a evangelizar por Jesus Cristo. A comunidade enquanto comunidade deve dá o seu testemunho missionário: anunciar o evangelho de Jesus Cristo aos homens e mulheres latino-americanos através de suas celebrações, festas, intervenções na área político-social, iniciativas de promoção humana e na denúncia de tudo aquilo que não constrói o Reino de Deus.

4.2.2. A PARTICIPAÇÃO DOS LEIGOS NA VIDA ECLESIAL: UMA IGREJA MAIS PARTICIPATIVA E MINISTERIAL

A introdução da categoria do Povo de Deus pelo Vaticano II na reflexão eclesiológica reformulou em profundidade a concepção institucional da Igreja. O acento recai não mais sobre quem ordena, quem pune, quem ensina, mas sobre quem serve. Ou seja, sobre a carismaticidade e ministerialidade da Igreja como Povo de Deus.

Nesta perspectiva a participação do leigo deixa de ser uma participação suplementaria para se configurar num protagonismo participativo na vida da comunidade eclesial. O leigo deixa de ser o mantenedor financeiro da instituição eclesiástica, executor daquelas tarefas que a hierarquia se auto-proíbe de fazer e de se envolver, destinatário de documentos e orientações doutrinais. O leigo é chamado a viver seu carisma e a exercer o seu ministério num contexto de comunhão e participação. Na Igreja da comunhão e da participação desaparece o dilema quem deve mandar e quem deve só obedecer: a missão é de todos e vai assumida segundo o critério da carismaticidade e da ministerialidade.


____________

(1) Sínodo dos Bispos. Assembléia especial para a América. Encontro com Jesus Cristo, nº11.

(2) Ibid. nº 1.

(3) J. COMBLIN, O Povo de Deus, pg. 30.

PROSPECTIVAS DA IGREJA COMO POVO DE DEUS NA AMÉRICA LATINA (Parte II)


1.1.2. A VERDADE ANUNCIADA PELA IGREJA
Cabe a Igreja aprofundar a verdade sobre Jesus Cristo, que penetrando na história dos homens e mulheres latino-americanos os comprometerá com a construção do Reino de Deus, que exclui toda forma de injustiça, de opressão, que aprisiona e destrói a imagem e semelhança de Deus. O seu olhar sobre a realidade é um olhar crítico que penetrando na realidade de miséria e sofrimento no qual vive milhões de latino-americanos, denuncia esta situação estruturalmente pecaminosa.

Do seu compromisso com a Verdade nasce a exigência da Igreja dialogar com as verdades que são construídas pelos homens e suas instituições no processo de percepção do mundo e na busca de satisfação de seus interesses e necessidades. Demonstrando a parcialidade destas «verdades» ao captarem somente algumas dimensões da realidade e a pretensão de tornarem-se verdades universais, somente a Igreja vislumbra para o homem a verdade de sua integralidade. E mais, a Igreja questiona as conseqüências práticas e teóricas destas «verdades» para o homem. Constatamos que é uma tarefa muito difícil se consideramos a questão epistemológica hoje. Por isso, da Igreja se requer a superação da tentação de cair no relativismo conceitual que vive a sociedade atual, onde cada indivíduo constrói a sua verdade, conforme os seus interesses e suas necessidades. Na visão relativista a verdade depende unicamente do indivíduo: aceitá-la ou rejeitá-la é tarefa estritamente pessoal. A verdade da qual a Igreja é portadora não pode ser considerada como uma verdade a mais no meio de tantas outras verdades dos homens. Portanto, a Igreja está comprometida em manter-se fiel à verdade de Jesus Cristo sem jamais adulterá-la para conseguir benefícios e privilégios.

1.2. O CONFRONTO COM A PÓS-MODERNIDADE E O PROCESSO DA GLOBALIZAÇÃO

A Igreja depois do Concílio Vaticano II realizou um esforço para dialogar com a modernidade. A Igreja já não podia continuar a viver no século XX com um modo de ser e de pensar cristalizados nos séculos passados, fechada ao progresso e desafios suscitados pelo confronto com o mundo moderno. O tempo da pós-modernidade é o tempo do diálogo e de confronto e não da imposição dogmática.

A Igreja da Nova Evangelização vive dentro do inevitável processo de globalização, e é dentro deste contexto histórico que é chamada a evangelizar o mundo pós-moderno e globalizado. O processo de globalização do mundo segundo alguns teve início nos anos 80, quando a tecnologia de informática foi associada à tecnologia das telecomunicações. Outros acreditam que a globalização iniciou um pouco mais tarde com a queda das barreiras comerciais. Quanto ao conceito de globalização não existe uma concordância conceitual admitida por todos. Para A. Seela, a globalização é um «processo econômico com apoio político, militar e cultural. Trata-se de uma nova etapa de acumulação na sua fase neoliberal, que começa na metade dos anos de 1970, o que se chama de consensus de Washington. Em outras palavras, é um movimento da sociedade capitalista neoliberal com o mero objetivo de aumentar a acumulação, globalizando o mercado, ou seja, transformando o mundo em um grande mercado livre» (1). Dentro desta perspectiva, a globalização é um processo que envolve todos os povos e nações, desenvolvido pelo capitalismo moderno, para colocar nas suas economias as bases do mercado livre, e de modo garantindo a sobrevivência e uma nova etapa do sistema capitalista.

O Foro Social Mundial de Porto Alegre 2001 – Chamados à mobilização – destaca as conseqüências do processo de globalização para os povos: «A globalizacão reforça um sistema sexista, excludente e patriarcal. Incrementa a feminilização da pobreza e exacerba todas as formas de violência contra as mulheres. A igualdade entre homens e mulheres é uma dimensão central de nossa luta. Sem esta igualdade, outro mundo jamais será possível.

A globalização neoliberal desata o racismo, dando seguimento ao verdadeiro genocídio de séculos de escravidão e colonialismo, que destruíram as bases civilizatórias das populações negras da África. Chamamos a todos os movimentos a solidarizar-se com o povo africano dentro e fora do continente, na defesa de seus direitos a terra, a cidadania, a liberdade, a igualdade e a paz, mediante o resgate da dívida histórica e social. O tráfico de escravos e a escravidão são crimes contra a humanidade.

A globalização neoliberal destrói o meio ambiente, a saúde e as condições de vida do povo. A atmosfera, a água, a terra e também os seres humanos são transformados em mercadorias. A vida e a saúde devem ser reconhecidas como direitos fundamentais e as decisões econômicas devem estar submetidas a este princípio» (2).

Os beneficiados com o processo da globalização são as nações ricas. Detendo o monopólio da tecnologia provocam nos países mais pobres a desvalorização das matérias-primas que exportam, e como conseqüência, permanece no atraso tecnológico. Portanto, o impacto da globalização, embora diferenciado, demonstram-se negativos para os países da periferia do sistema capitalista. Desprovidos e impossibilitados de um desenvolvimento tecnológico-industrial, sem um crescimento significativo do mercado interno e a permanente instabilidade política inviabiliza a sua inserção no processo para poder usufruir seus benefícios (3).

A Igreja ao confrontar-se com este novo cenário mundial na sua tarefa de evangelizar os povos latino-americanos denunciará toda e qualquer forma de colonialismo. Somará suas forças a luta empreendida por todos os movimentos sociais que dentro e fora do Continente, lutam pela defesa do direito a terra, pelo exercício pleno da cidadania, pela liberdade, pela igualdade e pela paz entre os povos. Deste modo, a Igreja procura resgatar a dívida histórica e social que tem para com cada homem e mulher que vive na Terra-mãe. Portanto, o Povo de Deus procura dialogar com todas as instâncias da sociedade civil e religiosa para que possa evangelizar na América Latina caminhando e procurando construir uma nova história de libertação, de protagonismo e vida digna para todos.

1.3. AS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS DA FÉ

A vivência da dimensão política da fé foi sempre para a Igreja na América Latina um grande desafio. Diante de tanta injustiça, de tanta escravidão e opressão, como anunciar a salvação de Jesus Cristo? O testemunho de uma fé desencarnada da história, das lutas e dos sofrimentos dos povos latino-americanos seria uma traição ao projeto libertador de Jesus Cristo. Por isso, os cristãos latino-americanos procuram iluminar os seus projetos e intervenções políticas a partir da fé que professam.

Existe no Continente um conflito sempre latente entre aqueles que consideram a fé desvinculada da vida. A Igreja segundo esta visão não tem autoridade alguma para intervir na vida política do povo, da sociedade. O campo restrito da ação missionária da Igreja é a «sacristia». Para a classe dominante «política é coisa de político». A Igreja deve se ocupar com suas missas, romarias, novenas e procissões.

O conflito entre fé e política deve ser analisado num nível mais profundo. Não se pode ficar na análise do fenômeno da aparente independência entre a esfera religiosa e a esfera política. Na realidade, o conflito tenta mascarar os interesses individualistas e egoístas da classe dominante, que não deseja que os oprimidos tomem consciência de sua realidade, e que motivados e fortificados pela sua fé, lutem buscando sua libertação.

A experiência de uma fé politicamente engajada traz consigo exigências de uma ética política que reflita os valores e as opções evangélicas. Conduz ao exercício democrático da cidadania como elemento fundamental de forjamento de uma nova realidade político-social nos países latino-americanos.

Cabe ao Povo de Deus contribuir com a educação política libertadora do povo através da participação ativa nos partidos políticos e nos seus programas, da contribuição com a inspiração evangélica dos princípios e diretrizes dos projetos políticos, que defendam os interesses dos menos favorecidos e de cursos de conscientização e educação política popular.

1.4. AS OPÇÕES PASTORAIS

Os documentos da III Conferência Episcopal de Puebla e o da IV Conferência Episcopal de Santo Domingo caracterizam-se como documentos de cunho pastoral, direcionados a estimular, dinamizar a prática evangelizadora do Povo de Deus latino-americano. São documentos de cunho eminentemente pastoral. É oportuno salientar que o episcopado ao fazer uma opção pastoral não está se negando a ver outros aspectos e urgências pastorais, teológicas ou adiando a sua intervenção na vida eclesial.

As opções pastorais dos documentos não podem ser analisadas como intervenções circunstanciais, modistas ou oportunistas, em que a Igreja tenta levar vantagem. São apelos, atitudes proféticas, momento de conversão para a Igreja e para o mundo. O clamor do oprimido torna-se o clamor da Igreja e suscita a intervenção divina.

No documento da II Conferência Episcopal de Medellín encontramos algumas opções pastorais: pela justiça, pela paz, pela família, pela educação, pela juventude, pela pastoral das massas, pela pastoral das elites, pela catequese, pela liturgia, pelos movimentos leigos, pelos sacerdotes, pelos religiosos, pela formação do clero, pela pobreza da Igreja, pela colegialidade e pelos meios de comunicação social (4). Por sua vez, o documento da III Conferência Episcopal de Puebla assume expressamente a terminologia opção pastoral. Diante da realidade pastoral do Continente os bispos escolhem e priorizam duas opções: a opção preferencial pelos jovens e a opção preferencial pelos pobres (cf DFP 1134-1205). Ao efetivar estas duas opções os bispos não pretendem deixar de lado os adultos e as crianças, e nem os ricos.

No esquema do DFSD da IV Conferência Episcopal de Santo Domingo aparecem três momentos distintos: no primeiro, apresenta um determinado tema; no segundo, apresenta os desafios em relação ao tema; e no terceiro, apresenta as linhas pastorais. No documento encontramos a opção preferencial pelos pobres não como um tópico específico, mas contextualizado em diferentes momentos, como por exemplo, quando fala do empobrecimento e da solidariedade, na parte dos desafios (cf DFSD 179). Assim sendo, o documento assume a terminologia linhas pastorais e não opções pastorais.

1.5. O DIÁLOGO COM OUTRAS RELIGIÕES E SEITAS

A perspectiva ecumênica do Concílio Vaticano II colocou a Igreja numa atitude de diálogo e reconhecimento de sua missão de realizar o grande desejo do coração de Jesus: «Pai que todos sejam um» (Jo 17,21). A intencionalidade da ecumenicidade do Concílio exprime o desejo da Igreja estabelecer um diálogo construtivo com as outras religiões e seitas.

A primeira dificuldade que deparamos é de caráter metodológico: como estabelecer o conceito de religião e seitas? Que critérios podem ser considerados válidos para elaborar uma distinção que não camufle os preconceitos, a discriminação religiosa, e inviabilize o processo de aproximação e comunhão?

Para alguns estudiosos das religiões fazer a distinção entre religiões e seitas é uma atitude preconceituosa, excludente. As expressões religiosas de um povo ou de uma raça, expressas em gestos e ritos, codificadas em escritos e livros sagrados constituem sua religião, sua fé, parte de sua cultura religiosa. O critério histórico da antiguidade dos mistérios revelados em uma determinada religião demonstra-se insuficiente, especialmente num continente que tem apenas 500 anos de inserção na história ocidental.

É importante perceber que os paradigmas que estabelecem os critérios para distinguir uma religião de uma seita são codificados por membros das religiões dominantes.

Na América Latina a realidade religiosa dos nossos povos é bastante complexa e diversificada. O processo de mistura das raças ocorrido durante a exploração do Continente pelos portugueses e espanhóis se estendeu também à dimensão religiosa. A cultura e a religião dos negros provenientes da África, a cultura e a religião dos habitantes autóctones misturados com a cultura e religião trazidas pelos brancos colonizadores gerou uma mistura, ou melhor, um modo particular de viver a fé miscigenada. A mistura inevitável de diferentes elementos religiosos destas três experiências religiosas levou o homem latino-americano a conceber o seu universo religioso povoado de conceitos contraditórios e práticas acomodadas segundo a necessidade espiritual de cada indivíduo. E no plano social a legitimar a divisão de classes onde os ricos detêm a legalidade do seu culto religioso e os pobres não inseridos nos cultos proibidos das seitas.

Dentro deste contexto o conceito religião parece colocar na situação de legalidade determinado grupo religioso e o conceito seita colocar um determinado grupo religioso na situação de clandestinidade. Na verdade os dois conceitos parecem situar as seitas na situação de grupo de resistência e marginalidade e as religiões na situação de grupo legalmente estabelecido e juridicamente legalizado no mundo das religiões.

«Para a Igreja latino-americana aparece o Jesus enviado pelo Pai ao mundo, fazendo-se presente na história dos povos para libertá-los de todas as escravidões as quais o pecado lhe mantém sujeitados: ignorância, miséria, fome, injustiça, opressão, divisões, marginalização, ódio... A sua é uma ação libertadora integral e de promoção do homem em todas as suas dimensões. Aparece um Jesus que, consciente desta sua missão, se junta com os “crucificados da história”, e, não tolerando nenhuma injustiça, oferece a “verdade que liberta” e “o amor que redime”. Cada povo, cada homem tem necessidade Dele para realizar a própria existência» (5). Para os cristãos, especialmente os neo-pentecostais, a hermenêutica da missão de Jesus recebe uma interpretação puramente individualista e reducionista. A preocupação principal de Jesus é curar, sanar os sofrimentos e as angústias imediatas das pessoas. A sua ação taumatúrgica resume sua missão. A dimensão política da mensagem de Jesus e as exigências éticas são menosprezadas, e se enfatizada por demais coloca em risco o crescimento número do grupo religioso. O Jesus captado por estas instâncias religiosas, mediante a leitura fundamentalista do Evangelho, é um Jesus a-histórico, desconectado da problemática social-religiosa de seu tempo, e consequentemente, também do nosso tempo. Assim sendo, não existe um desejo verdadeiro de descobrir o rosto do Cristo sofredor, padecente nos milhões de pobres, doentes, carcerados, abandonados da América Latina.

Existe uma sensível rejeição ou menosprezo para com a revelação de Jesus Cristo como o Libertador, capaz de vencer todas as escravidões que afligem os pobres do Continente, de direcionar a libertação e animar os cristãos a se tornarem agentes no processo de sua própria libertação. Afastando-se desta perspectiva os neo-pentecostais transferem o centro de compreensão da vida, do agir e do destino de Jesus à sua ação taumatúrgica como afirmamos acima.

O Povo de Deus busca estabelecer canais, meios de comunicação, que abram espaço para se construir um diálogo verdadeiro e respeitoso com as demais denominações religiosas sem, contudo, perder, ou renunciar a sua própria identidade. Tal impostação provoca necessariamente um novo modo de viver a fé na América Latina provocando muitos ataques e perseguições.

Tal impostação provoca necessariamente um novo modo de viver a fé na América Latina provocando muitos ataques e perseguições ao Povo de Deus.

Consideramos que para a construção de um diálogo frutuoso da Igreja com as outras religiões e seitas algumas dificuldades devem ser afrontadas pelos cristãos no esforço de transformar o ecumenismo numa prática eclesial:

a) A formação bíblico-teológico-pastoral dos membros das seitas. Esta formação é fundamental para poder estabelecer um diálogo fundamentado numa séria argumentação histórica e científica. As bases de discussão que possam validar a experiência do diálogo ecumênico, especificamente com os neo-pentecostais, estão na reflexão bíblico-teológico-pastoral. O problema parece insuperável porque a prática desta reflexão nestes grupos religiosos é de caráter fundamentalista, que na maioria das vezes inviabiliza o diálogo com os cristãos católicos.

b) As Igrejas e comunidades não podem ignorar os riscos que o diálogo impõe e as exigências de conversão à unidade. É necessário que os católicos estejam atentos a manter sua identidade, sem abdicar as verdades fundamentais da fé católica na hora do diálogo. A conversão à unidade não pode ser compreendida como o retorno de todos os cristãos, ou de todos os homens e mulheres ao seio da Igreja Católica Romana, e uma consequente extinção de todas as outras religiões.

c) O proselitismo religioso das seitas e de algumas igrejas deve ser superado através do desmascaramento de suas verdadeiras intenções e um conseqüente chamado à conversão na unidade.

A pluralidade de expressões religiosas da sociedade pós-moderna latino-americana. O fenômeno da explosão das seitas (6) está intimamente relacionado com o fenômeno da expansão da pluralidade religiosa do mundo pós-moderno.

Algumas estratégias podemos esboçar com um olhar de esperança, que um dia seja possível estabelecer um verdadeiro e construtivo diálogo ecumênico entre os cristãos latino-americanos. A partir deste diálogo ecumênico os cristãos da América Latina possam ser para todos os homens e mulheres ameríndios um incontestável testemunho de unidade. Para que isto aconteça é necessário:

a) Buscar construir um diálogo baseado no respeito mútuo e na tolerância. Não podendo momentaneamente vencer os obstáculos de uma reflexão doutrinal crítica é necessário estabelecer entre as igrejas e seitas uma atitude de respeito mútuo e de tolerância que garanta um mútuo conhecimento;

b) Acentuar os elementos doutrinais que são comuns e minimizar os pontos de divergência. Buscar o que une e não o que pode dividir. A evangelização é o ponto comum de encontro para todos os cristãos. Todos receberam o mesmo mandado: «Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho a todas as criaturas» (Mc 16,15);

c) Partilha de um projeto missionário comum, em que a caridade e o serviço ao pobre, sejam o critério teológico de interpretação e compreensão da pessoa e da missão de Jesus de Nazaré (7). Portanto, o projeto missionário vivido por cada igreja não é o projeto daquela determinada denominação religiosa, mas o projeto missionário de Jesus Cristo: a instauração do Reino de Deus na terra.

Os dados do Censo 2000 registram que o catolicismo brasileiro, embora que ainda amplamente majoritário, está declinando quanto ao número de fiéis. O número dos brasileiros que se declaravam católicos decresceu de 95% (em 1940) para 89% (1980) e 84% (1991) até chegar os 74%. Os diversos grupos evangélicos cresceram de 9% para 15% nos últimos dez anos. A tendência e a prospectiva de declínio para o próximo decênio continuará a mesma.

A Igreja não pode pensar num neo-projeto de cristandade na América Latina. Os católicos deixaram de ser maioria e deverão aprender a conviver numa sociedade pluri-religiosa, onde os espaços de atuação, influência e sobrevivência das diversas religiões tendem a se igualar entre os grupos religiosos majoritários e minoritários.

1.6. A ASCENSÃO DOS MOVIMENTOS ESPIRITUALISTAS E SUAS IMPLICAÇÕES ECLESIAIS

Assistimos neste final de milênio um interessante fenômeno religioso na América Latina: o aumento do número de pessoas que procuram uma experiência religiosa de caráter espiritualista (8). Trata-se da ascensão dos movimentos espiritualistas de tendência neo-pentecostal.

O sociólogo da religião Antônio Flávio Pierucci, partindo da análise do censo 2000, realizado no Brasil, é da opinião que a estratégia usada pelo papa João Paulo II para deter a queda do número de católicos, põe em questão os resultados da violenta despolitização levada a termo pelo papado no combate a Igreja «progressista» e a Teologia da Libertação. Segundo o sociólogo é questionável se tal estratégia serviu realmente para deter esta queda ou foi mais um motivo de seu aceleramento.

As seitas que mais cresceram neste período são caracterizadas como um sistema de crenças que prometem uma resposta imediata, infalível e materialista. A recompensa na vida eterna já não sensibiliza as multidões, as lamúrias do vale de lágrimas são postos de lado. O importante é que o fiel encontre na religião um modo para obter seguramente vantagens aqui e agora: emprego, cura de doença, vida decente, etc. Não interessa muito as vantagens e as promessas que irão ser realizadas na vida eterna. Interessa a religião que pode dar ao fiel a felicidade segura e imediata.

O acento na vivência religiosa é posto no aspecto individual. A abordagem sociológica do coletivo, que marcou a atuação do catolicismo progressista na sua experiência de pequenas comunidades de base e sua decisiva luta coletiva para mudar as estruturas de pecado social, é substituída por uma atitude ad intra. O crente é chamado a intervir somente na sua vida e dos seus familiares. Está, portanto, fora de sua experiência religiosa qualquer compromisso com a transformação da sociedade.

O frenesi místico, irracional, que marca os cultos de massa protagonizados por algumas igrejas e seitas, chamados de show místico, na verdade escondem o essencial das novas religiões que no fundo são profundamente materialistas. As características da mentalidade de nossa época: individualista, materialista, formalmente irracional, radicalmente conservadora em sua descrença na possibilidade de reformar as estruturas da economia e da sociedade são facilmente percebíveis.

As conseqüências na vida e na caminhada da Igreja no Continente são ainda imprevisíveis. De um lado muitos cristãos católicos vêm neste movimento a tábua de salvação e resgate dos católicos afastados da sua Igreja, e do outro lado, as CEBs tentam não capitular mantendo seu projeto de vida e engajamento comunitário, se tornando na Igreja uma experiência minoritária e considerada por muito conservadora. Diante desta realidade é que alguns estudiosos chegaram a falar da morte das CEBs e de todo um movimento de despolitização da Igreja na América Latina.

Na experiência religiosa pentecostal encontramos alguns elementos que consideramos importantes para compreender a configuração dos movimentos espiritualistas disseminados no Continente nos anos 90, e que são indispensáveis para podermos compreender a ascensão dos movimentos espiritualistas católicos e suas implicações eclesiais. Entre eles destacamos: a prioridade ao emocional e não ao compromisso efetivo, ao engajamento nas lutas sociais; o individualismo; o aspecto festivo para mexer com o emocional.

1.7. O RELATIVISMO RELIGIOSO: A SALVAÇÃO ESTÁ EM QUALQUER LUGAR

A prática das religiões pós-modernas apregoa o relativismo religioso. A questão da validade ou não de uma determinada religião no oferecer e realizar a salvação do fiel é considerada ultrapassada, e colocada ao nível decisional subjetivista de cada pessoa. A escolha de uma religião para praticar é totalmente conduzida por princípios pessoais. A religião serve na medida em que supre as expectativas espirituais e físicas da pessoa individualmente.

Na concepção do relativismo religioso a religião é um assunto estritamente pessoal. E todas elas são consideradas um caminho seguro e eficaz que conduz a Deus ou a outras entidades divinas. O importante é que o adepto sinta-se realizado, feliz dentro daquela religião ou seita.

Os bispos que participaram da Assembléia para a América constatam: «Como no areópago de Atenas ou no foro romano em tempos de São Paulo, também hoje proliferam ídolos e divindades, pululam mestres, gurus, seitas, movimentos esotéricos e gnoses globais, que oferecem projetos de felicidade e utopias de salvação aos homens do tempo presente» (9). É necessário que a Igreja apresente com convicção e sem temor que não existe nem no céu nem na terra outro nome que tenha o poder de salvar a humanidade que não seja o nome de Jesus de Nazaré (10). É necessário afirmar ao homem de hoje que existem verdades (religiosas, éticas, etc.) que não podem ser relativizadas, manipuladas ou ideologizadas. Neste nível se coloca as verdades da fé, da revelação cristã.

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(1) A. SEELA, Globalização neoliberal neoliberal e exclusão social. Alternativas? São possíveis! = Temas de atualidade, São Paulo: Paulus 2002, pg. 58.

(2) Foro Social Mundial de Porto Alegre 2001 – Chamados à mobilização, pg.2.

(3) Os planos de estabilização monetária e a reforma do Estado são as condições impostas pelas organizações financeiras internacionais para que esses países venham se inserir, num futuro remoto, à nova realidade econômica mundial. A baixa taxa de crescimento dos países latino-americanos é uma das faces desse modelo de estabilização. Mas as conseqüências perversas são imediatas, e se expressam na desindustrialização, no desemprego, no aumento da miséria, na privatização das empresas e dos serviços públicos, com corte nos gastos sociais em educação, saúde, moradia, previdência, etc.

(4) O documento da II Conferência Episcopal de Medellín no seu projeto redacional não assume uma proposta de indicar ou fazer uma opção pastoral de forma explícita. Mas ao determinar os temas a serem estudados e aprofundados na Conferência os identifica como prioritários para a evangelização pós-conciliar no Continente. É neste sentido que aqui os consideraremos como opção pastoral.

(5) Dossier: Da Cristo sconfito a Cristo rigenerato – Segretaria della C.E.I., in CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA – Ufficio Nazionale. Cooperazione missionaria tra le Chiese. 2, aprile-giugno, 2002, pg. 10.

(6) O fenômeno da expansão das seitas na América Latina é amplamente analisado por P. Canova, na sua obra: Un vulcano in eruzione. Le sette in America Latina. O Autor, além de traçar uma tipologia das seitas, fornece dados sobre os organismos internacionais que promovem estas seitas e que operam na América Latina. Cf P. CANOVA, Un vulcano in eruzione. Le sette in America Latina, in Quaderni EMI/SUD /10, Bologna: EMI 1987. No caso do Brasil é importante observar que o expansionismo do protestantismo através das seitas pentecostais teve ínicio no imediato pós II Guerra Mundial, atingindo nos anos 60 a média de 6% da população. Alguns estudos importantes sobre esta questão: P. DAMBORIENA, El Protestantismo en America Latina, Oficina Internacional de Investigadores Sociales de Feres, Friburgo: FERES 1962.

(7) «Qualcosa de sorprendetemente nuovo è però accaduto alcuni anni fa. Il tradizionale Cristo sofferente è visto non più solo come simbolo di sofferenza con cui potersi identificare, ma anche e specificamente come simbolo di protesta contro la propria sofferenza e soprattutto come simbolo di liberazione. Oggi, nell’esperienza che molti cristiani dell’A.L. fanno della propria fede, Gesù è visto e amato come il Liberatore. È questo l’elemento nuovo e davvero sorprendente, che ricupera meglio l’identità di Gesù di Nazareth, mandato da Dio ad “annunciare ai poveri la Buona Notizia e a liberare i prigionieri” (Lc 4,18)» (Dossier: Da Cristo, pg. 10).

(8) Pela expressão «experiência religiosa espiritualista» consideramos a busca de uma vivência religiosa em uma determinada religião sem implicações e compromissos com a transformação da sociedade.

(9) Sínodo dos Bispos. Assembléia especial para a América. Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América. Lineamenta, in A Voz do Papa /151, Paulinas: São Paulo 1996, nº 10.

(10) «Em ninguém mais se encontra a salvação; pois debaixo do céu não foi dado aos homens outro nome pelo qual possamos ser salvos» (At 4,12).

terça-feira, 23 de março de 2010

PROSPECTIVAS DA IGREJA COMO POVO DE DEUS NA AMÉRICA LATINA (Parte I)


Na tentativa de compreender a Igreja na América Latina como Povo de Deus, a partir da ótica eclesiológica dos documentos da II Conferência Episcopal de Puebla e da III Conferência Episcopal de Santo Domingo, podemos traçar algumas prospectivas que caracterizarão a ação evangelizadora dos cristãos comprometidos com a construção do Reino de Deus nestas terras ameríndias. O nosso esforço será aquele de continuar a delinear o novo rosto de Igreja Povo de Deus, comprometida com os mais pobres e marginalizados.

Para atingir este objetivo nos moveremos em torno das seguintes referenciais: em primeiro lugar, é necessário está atento aos desafios emergentes à sua ação evangelizadora da Igreja, considerando o contexto histórico-eclesial latino-americano muito preciso e em processo de constante transformação; em segundo lugar, é preciso ir além do momento da contextualização, lançando luzes que possam indicar algumas prospectivas para o futuro da Igreja na América Latina. Não se trata evidentemente de traçar prognósticos, ou oferecer receitas eclesiológicas para solucionar os possíveis futuros problemas da Igreja na América Latina; e por último, nos mover e impostar o discurso segundo a categoria eclesiológica da Igreja «Povo de Deus». Noutras palavras, as reflexões apresentadas nesta primeira parte visam aprofundar os questionamentos, às vezes angustiantes, sobre o futuro da presença dos cristãos católicos no Continente, considerando os principais traços de seu rosto peculiar: uma Igreja libertadora e pobre. Portanto, o questionamento fundamental não é se os católicos irão aumentar ou diminuir estatisticamente, ou qual o lugar que a Igreja deve ocupar no cenário histórico-cultural da América Latina, mas por onde o Povo de Deus deve caminhar no Continente para ser fiel ao projeto da Nova Evangelização.

1. DESAFIOS À AÇÃO EVANGELIZADORA DO POVO DE DEUS NA AMÉRICA LATINA

O Povo de Deus convocado a evangelizar no solo ameríndio reconhece que sua missão é bastante árdua e desafiante. A Igreja é chamada a realizar um novo êxodo de libertação com seus filhos e filhas no Continente da escravidão e da miséria.

Sabemos que a complexidade da sociedade latino-americana não se limita a sua dimensão religiosa. Por isso, se faz necessário ter sempre presente os fatores que caracterizam a sociedade, para que a ação evangelizadora possa contribuir no processo de libertação do Continente de uma forma efetiva e verdadeiramente conseqüente.

A análise de caráter histórica que realizamos no primeiro e no quarto capítulo, especificamente dos anos ’70 e ‘80, nos oferece elementos referenciais quanto à realidade concreta na qual a Igreja vive e é chamada a atuar. Nesta leitura podemos discernir os maiores desafios à ação evangelizadora do Povo de Deus para que a Igreja participe do mutirão de construção da comunhão e participação no presente e no futuro da América Latina.

1.1. UMA IGREJA COMPROMETIDA COM A VERDADE QUE LIBERTA E SALVA

A triste história das relações da Igreja com os governantes dos Países latino-americanos durante séculos denunciam uma Igreja que facilmente compactuou, colaborou com os poderes militares, civis e imperiais. A Igreja apoiando abertamente os interesses das classes dominantes e fechando os olhos aos sofrimentos, aos sonhos de libertação dos pobres e oprimidos, afastando-se paulatinamente do projeto evangélico de permanecer livre e libertadora, teve muita dificuldade em ser um sinal profético-libertador de Deus no meio do seu povo. Escrava dos poderes temporais e servindo ativa e passivamente aos projetos dos dominadores ficou impedida de ser a porta-voz da maioria dos homens e das mulheres latino-americanos reduzidos à escravidão, à miséria, vivendo como verdadeiros farrapos humanos, sem nenhuma dignidade humana e condenados ao extermínio. Porém, não faltaram algumas vozes solitárias que se colocaram ao lado dos marginalizados e excluídos pelo projeto colonizador europeu. Sofreram todo tipo de sofrimento e punição por parte dos órgãos repressivos do sistema colonizador por denunciarem as mentiras, as ambições, disfarçadas de verdades que salvam as almas. São exemplos deste testemunho: Montesinos, Bartolomé de Las Casas, Motolinía, Vasco de Quiroga, Turíbio de Mogrovejo.

1.1.1. CONVERSÃO À VERDADE QUE LIBERTA

A conversão da Igreja ao pobre não pode ser considerada um mero movimento histórico-eclesial na direção de um resgate da sua consciência histórica de sua dívida para com os empobrecidos, mas como o momento mais radical de retomada do seu compromisso com a verdade que liberta e salva: Jesus Cristo, o libertador e salvador da humanidade. Noutras palavras, quando a Igreja se converte ao pobre, se converte em Jesus Cristo; e quando a Igreja se converte a Jesus Cristo, torna-se pobre com os pobres.

No evangelho Jesus se declara como o único caminho que conduz à casa do Pai, como a única verdade que revela Deus para o homem e o homem para si mesmo, e como a vida que derrota definitivamente a morte e o pecado. «Eu sou a caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). À pergunta intrigante de Pilatos durante o processo inquisitório de Jesus: «O que é a verdade? » (Jo 18,38) revela a centralidade da missão de Jesus: ser caminho, verdade e vida para a humanidade. E o seu desejo é que todos cheguem ao conhecimento da verdade (1) e nela permaneçam (2). A verdade que Jesus veio trazer ao mundo não é um fato averiguável experimentalmente, mas é aceitação de sua pessoa e participação em sua missão por parte do crente que o acolhe incondicionalmente num encontro pessoal e irrenunciável.

Jesus não é uma verdade construída pela mente humana a partir dos seus esquemas e especulações racionalistas para dominar um aspecto da realidade ou suprir as necessidades espirituais. Ele não é uma verdade que se impõe pela ênfase retórica ou pela necessidade psicológica de explicações das grandes interrogações que repousam no coração humana sem uma resposta evidente e convincente. Jesus é a verdade que se auto-revela. É verdade em si mesmo: revela Deus, procede e está em Deus. «O Pai que me enviou, me prescreveu o que devo dizer e o que falar» (Jo 12,49). Jesus é a verdade que liberta o homem de toda forma de mentira, de engano, de prisão. O homem diante de Jesus o homem conhece sua verdadeira imagem: ser livre e libertado, e só na condição de homem livre e libertado é que o ser humano atinge sua plenitude.

A Igreja na América Latina, seguindo as pegadas de Jesus Cristo libertador, terá que ser coerente com a verdade libertadora de seu fundador. Deverá ser uma Igreja promotora da verdade que liberta e capaz de assumir todas as conseqüências desta ação libertária.

O DFP olhando para a realidade a ser evangelizada no Continente, explicita as três verdades fundamentais que a Igreja deve anunciar como conteúdo central da evangelização:

a) A verdade sobre o homem. A visão cristã do homem considera os esforços da razão iluminados pela fé em compreender a verdade do homem latino-americano (3). Tal visão não intenta somente valorizar exasperadamente as afirmações axiológicas ou delimitar alguns conceitos antropológicos de caráter academicista, mas visa contribuir na construção de um Continente mais cristão, no qual venha respeitada e promovida autenticamente a dignidade humana.

A verdade sobre o homem deve refletir a realização de todas as suas dimensões e potencialidades. Por isso, a Igreja procura desmascarar as visões inadequadas do homem da América Latina. Tais visões se demonstram insuficientes em fornecer uma visão da pessoa humana que ponha em evidência sua própria identidade e o sentido da vida, e muitas vezes de modo sigiloso atentam contra a própria dignidade humana. A visão integral do homem defendida pela Igreja é uma visão que abrange todas as dimensões do ser humano, sendo capaz de dinamizar a sua liberdade, a sua comunhão e a sua relação com Deus e com seus irmãos.

Na aquisição da visão integral do homem latino-americano é necessário observar seus três universos culturais bastante distintos: o indígena, o branco e o africano. Estes universos culturais estão na raiz do modo de ver o mundo, Deus e o homem. Diante da questão do mundo, de Deus e do homem são diferentes os modos de reagir e enfocar tais questões. A cosmovisão cristã respeita estas diferenças e critica os enfoques que parcializam ou deformam ou aniquilam a visão integral do homem.

Segundo DFP algumas abordagens que pretendem definir o ser humano impedem a visão integral do homem (cf DFP 304-315):

A visão determinista tão peculiar ao homem ameríndio no seu universo religioso primitivo. O homem vive a mercê de forças mágicas, ocultas, diante das quais se considera impotente, prisioneiro. A única atitude que pode tomar frente a estas forças e render-se e colaborar sem restrições. Nesta visão o homem não reconhece a sua autonomia em relação à natureza e a história. Tudo é inexoravelmente determinado e imposto por Deus. Não sobra espaço para a liberdade. O perigo da visão determinista é que ela pode ser instrumentalizada para justificar as desigualdades sociais entre os homens;

A visão psicologista pretende reduzir a pessoa humana ao seu psiquismo. O esforço permanente que o ser humano deve fazer é controlar os seus instintos dos quais é escravo. Sem liberdade, consciente dos mecanismos e sublimações psicológicas não há espaço para a religião no horizonte humano;

As visões economicistas têm suas raízes no fator econômico. O homem é visto a partir destas visões como um objeto de consumo – visão consumista -, como parte da máquina industrial. O homem é transformado em um fazedor de coisas e mercadoria: «Tudo se fabrica e se vende em nome dos valores do ter, do poder e do prazer, como se fossem sinônimos de felicidade humana» (DFP 311). A obtenção do lucro justifica todas as ações humanas. Os valores espirituais são dispensáveis e supérfluos dentro da sociedade de consumo. A visão individualista do ser humano, promovida pelo liberalismo econômico, fundamentalmente materialista, prioriza a eficácia econômica e liberdade de cada indivíduo como sinônimo de dignidade humana. O homem realiza-se na esfera do individual. Da sua parte, o marxismo clássico caminha em direção oposta à visão individualista. A individualidade da pessoa é substituída pela coletividade. O homem deve desenvolver ao máximo as forças materiais de produção;

A visão estadista, fundamentando-se em alguns países latino-americanos na teoria da Segurança Nacional. Esta teoria considera o homem como um instrumento de defesa dos interesses do Estado, sempre em estado de alerta para defendê-lo de todos os perigos, mesmo que para atingir este objetivo tenha que renegar a sua própria liberdade individual. A vontade do Estado torna-se a vontade da nação e conseqüentemente do indivíduo. Neste tipo de visão acontece uma radicalização da teoria da Segurança Nacional que se apresenta como uma realidade absoluta acima de todas as pessoas. O DFP 314 denuncia que uma das conseqüências drásticas desta absolutização é a institucionalização da insegurança dos indivíduos na sociedade estatal;

A visão cientificista erige como critério único da verdade somente àquilo que pode ser demonstrado pela ciência. Segundo esta visão, a única vocação a qual o homem é chamado a realizar na sua breve existência é trabalhar incansavelmente para dominar o universo. Tudo é justificado em nome da ciência. Tudo e todos devem está a serviço do progresso técnico-científíco. A felicidade humana depende das conquistas da ciência.

Todas estas visões são redutivas e incapazes de fornecer uma visão integral do mistério do homem, e colocam em perigo o respeito e a promoção da dignidade humana. Somente na fé em Jesus Cristo é que este mistério pode ser iluminado.

Jesus Cristo revela e renova o homem para o homem. «Dele vem o vigor que nos permite libertar-nos a nós e libertar os outros do mistério da iniqüidade» (DFP 330). O documento expõe algumas verdades sobre o homem reveladas em Jesus Cristo: é Deus que ama o homem por primeiro e lhe chama à existência; o homem foi criado por Deus para participar da comunidade trinitária: o Pai com o Filho no Espírito Santo; o homem foi «eternamente idealizado e eternamente eleito em Jesus Cristo» (DFP 184), e recebe a tarefa de realizar-se com imagem criada de Deus, «refletindo em si mesmo e na convivência com seus irmãos, o mistério divino da comunhão» (DFP 184) através de um testemunho capaz de transformar o mundo; é convocado a construir uma convivência fraterna lutando contra o mal, a morte, a injustiça, a violência, o ódio e o medo; recebe a missão de recuperar na sua existência a sua relação amorosa com o Pai, rompendo definitivamente com o domínio do pecado enquanto peregrina rumo à liberdade e construção da fraternidade.

b) A verdade sobre Jesus Cristo. A verdade revelada em Jesus Cristo não muda de acordo com a passagem do tempo e as interpretações histórico-teológicas que possam ser elaboradas quanto ao mistério de sua Encarnação. Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e eternamente. A verdade é o próprio Jesus revelado nas suas palavras, nos seus gestos e na sua própria pessoa.

Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Inserido na história dos homens, Jesus participa de todas as vicissitudes existenciais humanas de forma ativa, fazendo-se um de nós, exceto no pecado. Ele é «força motora da nossa história e inspiradora da verdadeira mudança social» (DFP 174).

A presença de Jesus na história dos homens é uma presença questionadora, transformadora, libertadora, salvadora. Diante dos projetos históricos esboçados pelos homens, Jesus assume uma postura profética denunciando as estruturas pecaminosas da sociedade que corrompem a dignidade da pessoa humana. Assumindo está atitude, Ele compartilha a vida, as esperanças e os sofrimentos e as angústias do seu povo para poder caminhar e construir a história segundo o desígnio do projeto do Pai.

Jesus não é um simples participante da história, mas Senhor da História e a plena manifestação do Reino de Deus no meio dos homens. Nele a história tem o seu início e a sua conclusão. Jesus é o salvador da humanidade. Durante toda a existência terrena, Jesus de Nazaré teve consciência de sua missão: «Anunciador e realizador do Reino e fundador de sua Igreja» (DFP 177). A Igreja recebeu a missão de anunciar a verdade do mistério de Jesus de Nazaré, Filho único de Deus após a sua ressurreição.

A verdade sobre Jesus Cristo garante a autenticidade de sua pessoa e de sua missão. Jesus Cristo não é um libertador emergencial, ou um guru promotor de uma ação taumatúrgica assistencial e superficial. Muito menos ainda pode ser considerado como um homem que desconhece as causas mais profundas da miséria e da pobreza de seu povo. O DFP 178 alerta para o perigo que podemos correr desfigurando, parcializando ou ideologizando a pessoa e a missão de Jesus Cristo. Jesus Cristo não pode ser reduzido à figura de um político, de um líder carismático, de um grande revolucionário, de um simples profeta no meio de tantos outros profetas de Israel. Tal postura corromperia a integridade do mistério de Jesus Cristo, e conseqüentemente da sua Igreja e do próprio Homem.

c) A verdade sobre a Igreja. O compromisso da Igreja é com a verdade que liberta. Um dos grandes desafios que tem como Povo de Deus no presente e no futuro da América Latina é continuamente manter o esforço de conversão aos pobres e superar dia após dia a grande nostalgia, de muitos de seus membros, principalmente da hierarquia, do retorno às regalias e privilégios do «palácio do poder real», com seus instrumentos sagrados de domínio e submissão. A Igreja é consciente de que os discípulos de Jesus não podem transformar a verdade de Deus em mentira (4). Outro desafio para a Igreja é permanecer vigilante para não se deixar cooptar e ser instrumentalizada pelos poderes políticos, que mascaram seus projetos individualistas sob o manto e a benção da religião. A sua autonomia diante dos poderes do mundo é essencial para se manter fiel à verdade que liberta.

A Igreja também deve está preparada para enfrentar as perseguições, as calúnias e até o martírio por causa da verdade. As perseguições e as calúnias impetradas por todos aqueles que se sentem incomodados com a ação profética, evangelizadora e libertadora do Povo de Deus é sinal da autenticidade do seu testemunho e compromisso com a Verdade. Os mártires latino-americanos continuam a derramarem o seu sangue alimentando o grande sonho de uma terra sem males, o sonho da fraternidade de homens e mulheres iguais, libertados no amor de Jesus Cristo.

A Igreja Povo de Deus também terá que enfrentar a tentação sempre palpitante da infidelidade à Verdade diante de projetos meramente humanos e imediatista, que prometem solucionar todos os problemas da sociedade latino-americana: «Não vos deixeis arrastar por qualquer espécie de doutrina estranha» (Heb 13,9). Portanto, a Igreja na América Latina «quer anunciar a verdadeira face de Cristo, porque nele resplandecem a glória e a bondade do Pai que tudo prevê e a força do Espírito Santo que anuncia a libertação verdadeira e integral de todos e de cada um dos homens de nosso povo» (DFP 189).

A Igreja Povo de Deus que caminha para a libertação será sempre convocada a reconhecer que é portadora da salvação – da verdade divina -, e que tem como membros criaturas de carne e osso, homens e mulheres. Estes membros não são anjos imaculados, mas pecadores susceptíveis a todas as limitações humanas, que necessitam constantemente da graça, do amor misericordioso de Deus, para se libertarem de seus pecados. Ela será sempre santa e pecadora enquanto peregrinar neste mundo.

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(1) «Deus dê a eles uma oportunidade de se converterem e conhecerem a verdade» (1Tm 2,25).

(2) «Por amor da verdade que permanece em nós e estará conosco. Que a paz da parte de Deus Pai, e de Jesus Cristo, o Filho do Pai, estejam convosco na verdade e no amor» (2Jo 2-3).

(3) «No mistério de Cristo, Deus baixa até o abismo do ser humano para restaurar por dentro sua dignidade. Oferece-nos assim a fé em Cristo, os critérios fundamentais para se obter uma visão integral do homem que, por sua vez, ilumina e completa a imagem concebida pela filosofia e as contribuições das outras ciências humanas, a respeito do ser do homem e de sua realização histórica» (DFP 305).

(4) «Porque, mesmo conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se perderam em seus raciocínios falsos, e o seu coração insensato mergulhou na escuridão. Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos! Eles confundiram o verdadeiro Deus com seres falsos» (Rm 1,21-22.25).

segunda-feira, 15 de março de 2010

AS OPÇÕES DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA


O presente texto é uma tentativa de ajudar na reflexão eclesiológica sobre a rica experiência de ser cristão no continente ameríndio, marcado por vários séculos de dominações e exploração de suas riquezas humanas e naturais.

Inicialmente creio que seja necessário fazer uma importante observação de caráter metodológico. Quando nos dispomos a estudar a realidade eclesial de nosso continente com todas as suas implicações eclesiológicas requer do estudioso um esforço intelectual que si prospecta em diversas direções:

- devemos ter clara consciência que somos parte do Povo de Deus, presente na América Latina. Estudo, conheço, amo, corrijo a minha Igreja para tornar o meu serviço e o serviço da minha comunidade mais radical no seguimento do Evangelho de Jesus Cristo;

- coragem para olharmos para o nosso passado com objetividade, sem falsear a nossa história, ou tentar justificar as situações de pecado da Igreja, mas assumir os nossos pecados e omissões para não repetir no presente os erros e horrores do passado;

- certeza que a nossa contribuição é indispensável para reforçar o projeto de ser Igreja comprometida com os pobres, Igreja evangelizadora e missionária no continente das contradições e da marginalização, do não-Homem;

- orientar o nosso conhecimento para o serviço pastoral qualificado aos nossos irmãos, à nossa Igreja.

O conhecimento que não está a serviço da vida é puro academicismo. A Igreja da América Latina não precisa de uma elite de pensadores e peritos nas ciências religiosas, distantes da vida e dos problemas do povo. Necessitamos de cristãos evangelizados e evangelizadores que contribuam com o saber no processo de libertação sua e de seus irmãos. Precisamos de cristãos comprometidos, corajosos, profetas, que ajudem seus irmãos a reconhecer na pessoa e no projeto de Jesus Cristo o verdadeiro caminho que conduz o homem, e todo o homem, à sua plena realização humana e divina.

Enfim, espero que este estudo possa lançar mais uma pedra na construção do Reino de Deus. O importante não é o tamanho da pedra, mas que seja a minha “pedra”, a minha insubstituível contribuição para que o Reino aconteça aqui, agora.

AS OPÇÕES PASTORIAS DA IGREJA

Alguém dizia que se desejamos acertar os passos no presente devemos olhar os passos dados no passado. A história nos ajuda a viver e a transformar o nosso futuro em presente de superação, em presente-realização. O que está em jogo é o nosso modo de interpretar o passado. A Igreja na América Latina fez as suas opções pastorais dentro de um determinado contexto histórico. É somente na leitura deste contexto que conseguiremos situar o atual momento eclesial latino-americano e perceber o singular rosto da Igreja.

RETROSPECTIVA HISTÓRICO-ECLESIAL

Brevemente elencamos alguns acontecimentos histórico-eclesiais indispensáveis para a compreensão do rosto latino-americano que a Igreja irá assumir em contexto de América Latina no período post-conciliar:

• O movimento litúrgico iniciado com os monges belga de Maredsous e de Mont-César (Congrès national des oeuvres catholiques – Malines, 23 de setembro de 1909);

• O movimento bíblico;

• O XX Concílio Ecumênico Vaticano I (1869-1870) – Pio IX: Constitutio dogmatica de fide catholica e Constitutio de ecclesia Christi;

• Os governos ditatoriais;

• Novas experiências pastorais;

• Novas formas de vida religiosa;

• Os desafios do diálogo com a modernidade;

• A Primeira e Segunda Guerra mundial;

• O XXI Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) – João XXIII e Paulo VI.

UMA IGREJA CHAMADA A DIALOGAR COM O MUNDO

A eleição do Papa João XXIII foi decisiva para que acontecessem as mudanças tão esperadas na vida da Igreja. O Papa Pio XII, antecessor do Papa João XXIII, desejou realizar o Concílio, mas não encontrando condições favoráveis preferiu adiá-lo. Embora sendo nomeado como um Papa de transição, João XXIII teve a coragem profética de convocar o Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja não podia mais esperar para abrir-se e dialogar com o mundo. A Igreja necessitava sair da atitude de ataque e reservas às novidades da modernidade e estabelecer um diálogo construtivo com esta nova realidade sem perder a sua identidade carismática, ou seja, enviada por Jesus a anunciar o seu Evangelho aos homens de todos os tempos, de todas as culturas.

O Concilio Ecumênico Vaticano II foi anunciado pelo Papa João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959. Teve a sua Primeira Sessão, no dia 11 de outubro de 1962. Desde o início o Papa João XXIII fez questão de destacar o seu aspecto pastoral: “Procuremos apresentar aos homens de nosso tempo, íntegra e pura, a verdade de Deus de tal maneira que eles a possam compreender e a ela espontaneamente assentir. Pois somos Pastores..." (1).

Nos deteremos a analisar brevemente alguns dados sobre o Concílio Vaticano II. "O Concílio aconteceu em um momento difícil para os nossos povos latinos americanos: anos de problemas, de angustiosa procura da própria identidade, caracterizado de um despertar das massas populares, de tentativas de integração americana (...) Tudo isso preparou o povo católico a abrir-se com uma certa facilidade a uma Igreja que se apresenta como "povo", e povo universal que penetra nos outros povos para ajudá-los a fraternizar e a crescer à uma grande comunhão" (DFP 233)..

O Concílio Vaticano II foi um concílio pastoral que procurou responder às exigências de abertura e diálogo da Igreja com mundo. A renovação conciliar atingiu todos os níveis da estrutura e da vida da Igreja, como podemos observar nos seus 16 documentos:

- constituição dogmática Lumen Gentium (sobre a Igreja);

- constituição dogmática Dei Verbum (sobre a revelação divina);

- constituição pastoral Gaudium et Spes (sobre a Igreja no mundo de hoje);

- constituição Sacrosanctum Concilium (sobre a liturgia);

- decreto Unitatis Redintegratio (sobre o ecumenismo);

- decreto Orientalium Ecclesiarum (sobre as Igrejas orientais católicas);

- decreto Ad Gentes (sobre a atividade missionária da Igreja);

- decreto Christus Dominus (sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja);

- decreto Presbyterorum Ordinis (sobre o ministério e a vida dos presbíteros);

- decreto Perfectae Caritatis (sobre a atualização dos Religiosos);

- decreto Optatam Totius (sobre a formação sacerdotal);

- decreto Apostolicam Actuositatem (sobre o apostolado dos leigos);

- decreto Inter Mirifica (sobre os MCS);

- declaração Gravissimum Educationis (sobre a educação cristã);

- declaração Dignitatis Humanae (sobre a liberdade religiosa);

- declaração Nostra Aetate (sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs).

“O Concílio Vaticano II significou um tempo novo para a vida da Igreja, um sopro do Espírito que se difundiu para além dos quadros intra-eclesiais e dos ambientes religiosos. Ao repensar a missão da Igreja e uma eclesiologia de amplas perspectivas para o trabalho pastoral. Lembramos aqui suas principais características:

a) a superação da concepção de Igreja “sociedade perfeita”, repartindo o espaço com a sociedade civil, em direção a uma concepção de Igreja comunidade, inserida no mundo, a serviço do reino;

b) a superação da oposição entre Igrejas da cristandade e Igrejas das missões, pelo reencontro da consciência de uma Igreja toda e sempre missionária;

c) a consciência mais clara de que a Igreja não é só a hierarquia, mas todo o Povo de Deus, ressaltando o papel dos leigos e a co-responsabilidade de todos, pastores e fiéis, na ação pastoral e na missão evangelizadora, sem deixar de reconhecer e valorizar a vocação específica missionária “ad gentes”;

d) a redescoberta da Igreja Particular ou Local, como realização viva e característica da Igreja Universal, em comunhão com as demais e com a sede primacial de Pedro;

e) a mudança para uma pastoral mais atenta à necessidade de uma nova linguagem catequético-litúrgica e para uma evangelização das massas afastadas da vida eclesial;

f) a valorização do mundo e das realidades terrestres e o reconhecimento de sua justa autonomia;

g) a abertura ao ecumenismo e ao diálogo com as religiões e as culturas. Essas novas atitudes reconhecem a possibilidade de aprender algo do mundo moderno, mesmo dos adversários. Por isso, levam a admitir que os membros da Igreja nem sempre foram isentos de culpas ou erros” (2).

PONTOS CRÍTICOS DA RENOVAÇÃO CONCILIAR

O conceito eclesiológico Igreja Povo de Deus, em âmbito histórico-teológico, não é fruto imediato da nova eclesiologia do Concílio Vaticano II. Os estudos histórico-sistemáticos fixam no início do século XX as primeiras tentativas da formulação de uma eclesiologia baseada na categoria eclesiológica “Povo de Deus”(3).

O Concílio Vaticano II utilizando esta categoria propõe um novo modelo eclesial: “Diante de uma eclesiologia triunfalista, o Vaticano II proclama uma Igreja serva da humanidade (GS 40-43), que segue o caminho de Jesus pobre e humilde ( LG 8), e que caminha para a escatologia (LG VII). (...) Diante de uma Igreja clerical, o Vaticano II introduz o conceito bíblico de Povo de Deus, povo de batizados que têm a mesma fé, a mesma Escritura, se nutrem da Eucaristia, possuem pluralidade de carismas do Espírito. (...) Diante da concepção juridizante, o Vaticano II ressalta a dimensão do ministério (LG I), Igreja da Trindade, que nasce do Pai, é animada pelo Espírito Santo e reflete a luz de Cristo”(4).

Depois de concluído o Concilio, a Igreja coloca em marcha o difícil processo de atualizar, concretizar as orientações e determinações conciliares.

O período imediato post-conciliar foi marcado por um verdadeiro cataclismo na vida da Igreja, provocados por interpretações errôneas e abusivas das orientações conciliares. As mudanças radicais muitas vezes não respeitavam a caminhada das comunidades eclesiais. Muitos católicos sentiram-se confusos e desorientados com a renovação conciliar (a retirada dos santos das igrejas, a supressão do habito clerical (batina), o alto índice de abandono do ministério sacerdotal, novos conceitos e interpretações da fé e dos costumes, etc). Faltava uma leitura do Concílio segundo o seu espírito de renovação eclesial, de diálogo com o mundo.

PRIMEIROS ESFORÇOS DE RECEPÇÃO CONCILIAR NA AMÉRICA LATINA (5)

O processo de recepção de um concílio ecumênico não se faz da “noite para o dia”. É um processo lento, mas continuo(6). Todas as Igrejas locais foram interpeladas a discernirem o melhor modo de concretizar o concílio a partir da sua própria realidade. Os bispos latino-americanos promoveram a II Conferência Geral, em Medellin, que se torna o marco referencial do início da recepção conciliar no continente.

No esforço de recepção conciliar, a Igreja que está presente na América Latina adquiriu um rosto próprio, o seu modo de ser Povo de Deus em contexto ameríndio(7). Evidentemente não se trata de uma "Igreja latino-americana", ou seja, de uma nova Igreja em via de emancipação da Igreja institucional de Roma ou de uma Igreja do povo, pobre, revolucionária, profética, como pretendem alguns estudiosos. O Povo de Deus que constitui a Igreja no continente latino-americano é uma porção da Igreja universal.

Alguns eventos eclesiais e documentos magisteriais foram decisivos para a configuração da Igreja e da eclesiologia latino-americana:

 A II CONFERENCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO.

Em 1968 os Bispos latino-americanos reunidos em Medellin (Colômbia) celebraram a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano.

No contexto eclesial latino americano a II Conferência Episcopal de Medellin se configura como a primeira tentativa de recepção do Concilio Vaticano II. Com razão o documento do Conselho Episcopal Latino-americano afirma: "Medellin foi uma feliz coincidência das expectativas do continente e da Igreja latino-americana de novas e incipientes realizações de alguns grupos eclesiais e de concretizações latino-americanas do Concílio Vaticano II"(8).

A questão fundamental que os Bispos se colocam é: como ser cristão na América Latina, continente da pobreza e da marginalização? Tal questionamento provoca uma nova reorientação antropológica: a Igreja precisa voltar-se para o homem porque para “conhecer Deus é necessário conhecer o homem”(9).

O ponto de partida para a Igreja foi considerar atentamente a atual situação do “homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico”(10). Este momento é caracterizado pelas mudanças rápidas do contexto sócio-político-econômico. Da reflexão dos Bispos latino-americanos ficou claro que o rosto da Igreja na América Latina é diferente do rosto da Igreja em outros continentes. Portanto, não era suficiente oferecer para os cristãos latino-americanos só uma reflexão teológica dos principais postulados estruturais do Concílio, ou orientações de mudanças acidentais para a vida da Igreja. Os Bispos sentiram a necessidade de fazer uma reflexão orientada “para a busca de forma de presença mais intensa e renovada da Igreja na atual transformação da América Latina”(11). Em definitivo: os Bispos perceberam que não seria possível aplicar as diretrizes conciliares a partir dos parâmetros da realidade sócio-cultural-religiosa do homem europeu.

A partir da II Conferência Geral a Igreja começa a se apresentar aos povos ameríndios como:

- uma Igreja profética: livre e corajosa para denunciar todas as situações e o pecado que destroem a vida do homem latino-americano;

- uma Igreja servidora: não mais um Igreja preocupada em defender seus privilégios e estruturas, mas preocupada em servir o povo;

- uma Igreja dos pobres: despojada das honrarias e dignidades, partilhadora das angústias e esperanças dos pobres e marginalizados.

As opções pastorais do documento da II Conferência (12) foram importantes para que a Igreja, nos anos 70, pudesse assumir e dar o seu contributo no processo de transformação e desenvolvimento do continente (13). Deste modo, a Igreja procura concretizar a eficácia histórica do amor cristão, colaborando com os projetos político-sociais comprometidos com a mudança estrutural da sociedade latino-americana. Sem dúvida alguma este é o momento privilegiado da conversão da Igreja aos pobres.

 AS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBs)

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) propõem um novo modelo de ser Igreja, que favorecendo a participação ativa e pessoal de seus membros, realiza o seu caráter comunitário e real compromisso na transformação do mundo. “As Comunidades de Base (...) estão à base do povo; não somente emprestam a sua voz aos pobres, mas procuram a sua voz e a deixam ressonar nas Igrejas; se descentraliza e sacraliza até se tornar solidária com os pobres; adquire em muitos grupos eclesiais uma unidade desconhecida entre bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos; promove novos ministérios; enfrenta com coragem a perseguição e o martírio, encontrando neste o sinal privilegiado da sua verdade”(14).

 A OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES

A opção preferencial pelos pobres não é uma opção exclusiva ou excludente ao interno do Povo de Deus. A opção preferencial pelos pobres é: uma opção pastoral que exige uma profunda “conversão e purificação constante em todos os cristãos, para chegar a uma identificação sempre mais plena com Cristo pobre e com os pobres”(15).

 A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A Teologia da Libertação foi um das primeiras tentativas de uma contribuição genuinamente latino-americana à problemática, à reflexão e ao debate teológico dos anos 70, sob o influxo direto do Concílio Vaticano II.

A primeira formulação estruturada da Teologia da Libertação encontramos na obra publicada pelo teólogo peruano, Gustavo Gutiérrez, intitulada: Teología de la Liberación. Perspectivas (1972). A sua teologia utiliza o método da Guadium et Spes (VER-JULGAR-AGIR) e assume a linguagem da libertação no fazer teologia, integrando no discurso teológico o nível político, o nível da interpretação histórica, e aquele teológico. A Teologia da Libertação supera a formulação da teologia como “função crítica da ação pastoral da Igreja” e se propõe como “reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra”(16). Esta não é simplesmente um novo ramo da teologia, mas um novo modo de fazer teologia, no qual a preocupação com os pobres e com a sua libertação integral são centrais e efetivamente se propõe a realizar uma “re-leitura do evangelho a partir da práxis de libertação”(17).

 A EXORTAÇÃO APOSTÓLICA "EVANGELII NUNTIANDI"

A Exortação Apostólica "Evangelii Nuntiandi" (18 de setembro de 1975), do Papa Paulo VI, sobre o compromisso de todo o Povo de Deus na missão evangelizadora da Igreja. Segundo o Paulo VI, o conteúdo da evangelização é o Evangelho de Cristo; os destinatários são todos os homens de boa vontade; o sujeito operador da evangelização é a comunidade eclesial; e o espírito que anima a evangelização é o Espírito Santo. A Exortação aprofunda o tema da libertação e do homem, como centro das preocupações pastorais da Igreja.

 A III CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO

A III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano foi convocada por Paulo VI, confirmada por João Paulo I e reconfirmada e presidida pelo papa João Paulo II e realizada de 27-1 a 13-2 de 1979, em Puebla de los Angeles (México).

O objetivo da III Conferência foi refletir sobre a caminhada da Igreja dez anos depois da II Conferência Geral, de Medellin. Segundo o papa João Paulo II a III Conferência deve “tomar como ponto de partida as conclusões de Medellin, com tudo o que tem de positivo, mas sem ignorar as incorretas interpretações por vezes feitas e que exigem sereno discernimento, oportuna crítica e claras tomadas de posição”(18).

O documento da III Conferência Geral deixa clara a tarefa pastoral da Igreja na América Latina: anunciar a todos os homens a verdade sobre Jesus Cristo, a verdade sobre a missão da Igreja e a verdade sobre o homem.

Para realizar a sua tarefa pastoral os Bispos procuraram considerar atentamente a atual situação do “homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico”(19). Este momento é caracterizado pelas mudanças sócio-político-econômico. Da reflexão dos Bispos ficou claro que o rosto da Igreja na América Latina é diferente do rosto da Igreja em outros continentes. Portanto, não era suficiente oferecer para os cristãos latino-americanos só uma reflexão teológica dos principais postulados estruturais do Concílio, ou orientações de mudanças acidentais para a vida da Igreja. Os Bispos sentiram a necessidade de fazer uma reflexão orientada “para a busca de forma de presença mais intensa e renovada da Igreja na atual transformação da América Latina”(20). Em definitivo: os Bispos perceberam que não seria possível aplicar as diretrizes conciliares a partir dos parâmetros do homem europeu.

 A IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO

A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano convocada, inaugurada e presidida pelo papa João Paulo II, aconteceu nos dias 12/28 de outubro de 1992, em Santo Domingo (Republica Dominicana).

Treze anos depois da III Conferência de Puebla, os Pastores da Igreja na América Latina voltam a se reunir para refletir sobre a realidade eclesial do Continente. Novas realidades preocupam os Bispos e se tornam desafios à ação evangelizadora da Igreja: a violência urbana, a proliferação das seitas, o empobrecimento do povo, etc.

Os Bispos apontam três linhas mestras da ação evangelizadora da Igreja na América Latina:

• a nova evangelização:

“A nova evangelização não consiste num ‘novo evangelho’, que surgiria sempre de nós mesmos, da nossa cultura ou da análise sobre as necessidades do homem. Pois isso não seria ‘evangelho’, mas pura salvação humana (...) Nem mesmo consiste em retirar do Evangelho aquilo que parece dificilmente assimilável pela cultura contemporânea. A cultura não é a medida do Evangelho, mas Jesus Cristo é a medida de toda a cultura e de toda obra humana”(21).

“Falar de nova evangelização não quer dizer reevangelizar. Na América Latina, não se trata de prescindir da primeira evangelização, mas de partir dos ricos e abundantes valores que ela deixou para aprofundá-los e complementá-los, corrigindo as deficiências anteriores. A nova evangelização surge na América Latina como resposta aos problemas apresentados pela realidade do continente no qual se dá um divórcio entre fé e vida, ao ponto de produzir clamorosas situações de injustiça, desigualdade social e violência” (DSD 24).

“O conteúdo da nova evangelização é Jesus Cristo, Evangelizador do Pai, que anunciou com gestos e palavras que Deus é misericordioso para com todas as suas criaturas, que ama o homem com um amor sem limites e quis entrar na sua história por meio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, para libertar-nos do pecado e de todas as suas consequências e para fazer-nos participar de sua vida divina” (DSD 27).

• a promoção humana;

“A solidariedade cristã é certamente serviço aos necessitados, mas é, sobretudo, fidelidade a Deus. Isto fundamenta a relação entre evangelização e a promoção humana.

Nossa fé no Deus de Jesus Cristo e o amor aos irmãos tem de traduzir-se em obras concretas” (DSD 159).

“A promoção (...) deve levar o homem e a mulher a passar de condições menos humanas para condições cada vez mais humanas, até chegar ao pleno conhecimento de Jesus Cristo” (DSD 161).

Os novos sinais dos tempos no campo da promoção humana: os direitos humanos, a ecologia, a questão da terra, o empobrecimento, o trabalho, as migrações, a ordem democrática, a nova ordem econômica a integração latino-americana, a família e a vida (desafios mais urgentes na promoção humana).

• a cultura cristã.

“Por nossa adesão radical a Cristo no Batismo, comprometemo-nos a fazer com que a fé, plenamente anunciada, pensada e vivida, chegue a fazer-se cultura. Assim, podemos falar de uma cultura cristã quando o sentir comum da vida de um povo tiver sido penetrado interiormente, até ‘situar a mensagem evangélica na base de seu pensamento, nos seus princípios fundamentais de vida, nos seus critérios de juízo, nas suas normas de ação’ (...) Os autênticos valores culturais, discernidos e assumidos pela fé, são necessários para encarnar nessa mesma cultura a mensagem evangélica e a reflexão e práxis da Igreja” (DSD 229).

“Hoje em dia percebe-se uma crise cultural de proporções inimagináveis na qual vão desaparecendo valores evangélicos e ainda humanos fundamentais”. Diante desta realidade a Igreja é chamada a inculturar o Evangelho. “A inculturação do Evangelho é um processo que supõe reconhecimento dos valores evangélicos que se têm reconhecimento dos valores evangélicos que se têm mantido mais ou menos puros na atual cultura; e o reconhecimento de novos valores que coincidem com a mensagem de Cristo. Mediante a inculturação, busca-se que a sociedade descubra o caráter cristão desses valores, os aprecie e os mantenha como tais. (...) A fé, ao se encarnar nessas culturas, deve corrigir seus erros e evitar sincretismos” (DSD 230).

A cultura cristã:

- tem em Cristo a medida de sua conduta moral;

- respeita a unidade e pluralidade das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças;

- procura a salvação e libertação integral do homem;

“A Igreja defende os autênticos valores culturais de todos os povos, especialmente dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante da força esmagadora das estruturas de pecado manifestas na sociedade moderna” (DSD 243).

O ROSTO LATINO-AMERICANO DA IGREJA

Uma das dificuldades que a reflexão eclesiológica na América Latina teve que aprofundar, e que se tornou patente na III Conferência Geral, foi se os contornos que ia adquirindo a Igreja na América Latina seriam melhor definidos como a experiência de uma nova Igreja em confronto ao modo de ser Igreja, principalmente no Ocidente. A questão terminológica aparentemente pode nos parecer insignificante, mas na realidade não o é. A clareza e evidência dos conceitos, na medida do possível, nos ajudam a escolher, separar, criticar, etc. Um novo modo de ser Igreja não implica necessariamente na afirmação da existência de uma nova Igreja. O novo modo de ser Igreja é o mesmo da Igreja de Jesus Cristo

Sinteticamente apresentamos alguns traços do rosto da Igreja na América Latina que caracteriza sua presença e comunhão com o povo pobre e excluído deste continente:

 A Igreja de Jesus Cristo. O esforço de promoção humana, a luta em defesa dos direitos dos pobres, o grito denunciador de toda forma de injustiça e escravidão, não reduz a ação pastoral da Igreja a uma simples ação humanitária em defesa da vida, mas é sedimentada no amor à pessoa de Jesus Cristo que convoca, envia em missão cada cristão – evangelizador da humanidade. Esta Igreja tem consciência de ser novo Povo de Deus, convocado por Jesus Cristo a dar testemunho do amor libertador de Deus. Portanto, Jesus Cristo é fundador, o convocador da comunidade evangelizadora e a fonte de sua santidade.

“Por esta razão, hoje e amanhã na América Latina, os cristãos, como Povo de Deus, enviados para sermos sementes de unidade, de esperança e de salvação, precisamos formar uma comunidade que viva a comunhão da Trindade e seja sinal de presença de Cristo morto e ressuscitado, que reconcilia os homens com o Pai no Espírito, os homens entre si e o mudo com o seu criador” (DP 1301).

 A Igreja da comunhão e participação. O binômio comunhão e participação coloca em evidência o aspecto da vida interna da comunidade. A comunidade é acentuadamente marcada pelo clima de família, lugar de encontro. A comunidade é organizada de tal modo que favorece a participação de todos os seus membros; ela se torna o lugar onde todos têm “vez e voz”, onde se partilha e se comunga a vida dos irmãos e se encontra Deus e os irmãos. É o Espírito Santo que garante a unidade da dimensão vertical com aquela horizontal da Igreja, mistério de comunhão dos homens com Deus e entre si.

 A Igreja dos pobres. A Igreja na América Latina se define como Igreja dos pobres. Tal definição exclui a concepção de uma Igreja para ou com os pobres. O pobre, para a Igreja, não é uma mera categoria sociológica que justifique a sua atuação no campo social. O pobre é todo ameríndio que vive situações de pecado, de injustiça, de exclusão e de morte (22). A consciência de ser Igreja dos pobres conduz os cristãos latino-americanos a denunciarem e lutarem contra todas as estruturas de empobrecimento do continente.

“Vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, a brecha crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converter-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador”(DP 28).

“Comprovamos, pois, como o mais devastador e humilhante flagelo a situação de pobreza desumana em que vivem milhões de latino-americanos”(DP 29).

“Ao analisar mais a fundo tal situação, descobrimos que esta pobreza não é uma etapa casual, mas sim o produto de determinadas situações e estruturas econômicas, sociais e políticas, embora haja também outras causas da miséria (...) Esta realidade exige, portanto, conversão pessoal e transformações profundas das estruturas que correspondam às legítimas aspirações do povo a uma verdadeira justiça social”(DP 30).

 A Igreja que dialoga com o mundo e com a história. A Igreja na América Latina tem uma profunda consciência da sua dimensão histórica. Sabe de ser um povo universal, aberto a todos os povos, peregrino e chamado a construir o projeto salvífico de Deus, revelado em Jesus Cristo na história. Portanto a Igreja não se fecha ao mundo, mas faz suas as angústias, os sofrimentos, as alegrias e as esperanças dos homens e das mulheres latino-americanos, dando desde modo a sua contribuição à transformação da sociedade. Em síntese, a postura da Igreja diante do mundo e da história dos povos latino-americanos é aquela do diálogo, de participação plena nas realidades terrenas. Por isso, em razão dessa participação nas realidades humanas, a Igreja se compromete na defesa dos direitos humanos, na promoção do homem, na denuncia de toda forma de violência contra a dignidade da pessoa humana. Portanto, é irrenunciável a sua vocação de anunciar o Evangelho na história dos povos latino-americanos. A celebração dos 500 anos da conquista da América Latina foi um momento forte para que a Igreja pudesse repensar todo o processo de evangelização e reconhecer e pedir perdão pelos seus erros, discriminações e omissões no passado, sobretudo para com os escravos negros africanos.

 A Igreja que celebra a vida. A Igreja na América latina é uma Igreja viva, alegre, jovem. Procura celebrar o que vive e viver o que celebra. O ponto alto desta celebração dar-se nas celebrações litúrgicas. A celebração litúrgica torna-se o momento privilegiado de louvor, de agradecimento e de súplica da comunidade. A religiosidade popular do povo latino-americano é rica de expressões e símbolos de fé que são celebradas pessoal e comunitariamente através de práticas de piedade como romarias, terços, novenas, danças, festa do padroeiro, bençãos, etc.

 A Igreja dos mártires. Muitos foram os cristãos que com o seu sangue pintaram esta parte do rosto da Igreja na América Latina. A perseguição, calúnia e difamação, e muitas vezes o assassinato dos profetas de Jesus Cristo nas terras ameríndias dão testemunho da radicalidade da vivência evangélica dos cristãos latino-americanos. Margarida Alves, Tito, Romero, Josimo, e tantos outros, derramaram o seu sangue anunciando o Evangelho de Jesus Cristo aos seus irmãos. A Igreja na América latina continua a ser perseguida na pessoa dos seus teólogos, no assassinato dos seus agentes de pastoral e pastores na defesa dos direitos humanos, na defesa da vida.

 A Igreja dos ministérios. Na América latina, a Igreja se configurou com uma comunidade ministerial: o ministério é vivenciado como um serviço aos irmãos. O ministério na comunidade não visa a promoção pessoal ou de um grupo, nem monopólio e centralização do poder nas mãos de uma casta. É resposta concreta aos desafios e urgências pastorais às quais a comunidade deve intervir. De acordo com as necessidades da comunidade, o Espírito foi suscitando os diversos ministérios pastorais: ministro da Palavra, ministro da Eucaristia, ministro dos enfermos, etc.

 A Igreja da nova evangelização. Diante dos desafios do secularismo, da “cultura da morte”, da propagação das seitas, superficialidade religiosa, a IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano convocou a Igreja a promover no continente uma nova evangelização. Assim sendo a Igreja foi chamada a revitalizar a sua dimensão evangelizadora para tornar mais incisivo na vida dos homens e mulheres latino-americanos o anúncio e adesão à proposta do projeto de Deus, realizado no Evangelho de Jesus Cristo. Todos os membros da comunidade são responsáveis pela evangelização.

AS OPÇÕES PREFERENCIAIS DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA

 A opção preferencial pelos pobres.

“A Conferência de Puebla volta a assumir, com renovada esperança na força vivificadora do Espírito, a posição da II Conferência Geral que fez uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos pobres. (...) Afirmamos a necessidade de conversão de toda a Igreja para uma opção preferencial pelos pobres, no intuito de sua integral libertação” (DP 1134).

“A imensa maioria de nossos irmãos continua vivendo em situação de pobreza e até de miséria, que se veio agravando. Queremos tomar consciência do que a Igreja latino-americana fez e deixou de fazer pelos pobres depois de Medellin, como ponto de partida para a busca de pistas opcionais eficazes em nossa ação evangelizadora, no presente e no futuro da América Latina” (DP 1135).

Na Igreja da América Latina, nem todos nos temos comprometido bastante com os pobres; nem sempre nos preocupamos com eles e somos com eles solidários. O serviço do pobre exige, de fato, uma conversão e purificação constante, em todos os cristãos, para conseguir-se uma identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres” (DP 1140).

“Ao aproximar-nos do pobre para acompanhá-lo e servi-lo, fazemos o que Cristo nos ensinou, quando se fez irmão nosso, pobre como nós. Por isso o serviço dos pobres é medida privilegiada, embora não exclusiva, de nosso seguimento de Cristo. O melhor serviço ao irmão é a evangelização que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente” (DP 1145).

 A opção pelos jovens

“A Igreja confia nos jovens. Eles são a sua esperança. A Igreja vê na juventude da América Latina um verdadeiro potencial para o presente e para o futuro de sua evangelização. (...) Por isso, queremos oferecer uma linha pastoral global: desenvolver, de acordo com a pastoral diferenciada e orgânica, uma pastoral de juventude que leve em conta a realidade social dos jovens de nosso continente; atenda ao aprofundamento e crescimento da fé para a comunhão com Deus e os homens; oriente a opção vocacional dos jovens; lhes ofereça elementos para se converterem em fatores de transformação e lhes proporcione canais eficazes para a participação ativa na Igreja e na transformação da sociedade” (DP 1186-1187).

“Convocamos mais uma vez os jovens para que sejam força renovadora da Igreja e esperança do mundo” (DSD 293).

AS OPÇÕES PASTORAIS DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA (23)

No Documento de Santo Domingo, os Bispos apresentam uma síntese das três linhas pastorais prioritárias na ação evangelizadora da Igreja na América Latina:

1) Uma nova evangelização de nossos povos:

“Para que Cristo esteja no interior da vida dos nossos povos , convocamos todos os fiéis a uma nova evangelização e convocamos especialmente os leigos, e entre eles os jovens. Nesta hora confiamos em que muitos jovens, ajudados por uma pastoral vocacional eficaz, possam responder ao chamado do Senhor para o sacerdócio e a vida consagrada.

- Uma catequese renovada e uma liturgia viva, numa Igreja em estado de missão, serão os meios para aproximar e santificar mais todos os cristãos e, em particular, os que estão afastados e são indiferentes.

- A nova evangelização intensificará uma pastoral missionária em todas as Igrejas e far-nos-á sentir responsáveis por transpor as nossas fronteiras a fim de levar a outros povos a fé que há 500 anos chegou até nós.

2) Uma promoção integral dos povos latino-americanos:

Como expressão da nova evangelização, comprometemo-nos também a trabalhar por uma promoção integral do povo latino-americano e caribenho, tendo a preocupação de que os seus principais destinatários sejam os mais pobres.

- Nesta promoção humana ocupa um lugar privilegiado e fundamental a família, onde tem origem a vida. Hoje, é necessário e urgente promover e defender a vida, devido aos múltiplos ataques que a ameaçam setores da sociedade contemporânea.

3) Uma evangelização inculturada:

Devemos encorajar uma evangelização que penetre as raízes mais profundas da cultura comum dos povos, tendo uma especial preocupação pela crescente cultura urbana.

- Ocupar-nos de uma autêntica encarnação do Evangelho nas culturas indígenas e afro-americanas do nosso continente mereceu-nos particular atenção.

- Para toda esta inculturação é muito importante desenvolver uma eficaz ação educativa e utilizar os meios modernos da comunicação” (Mensagem da IV Conferência aos Povos da América Latina e Caribe, n. 30-32, in DSD).

UMA EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA DE SER IGREJA

O Concílio Vaticano II provocou nos cristãos brasileiros uma nova autoconsciência da Igreja. Alguns acontecimentos marcaram este caminho de renovação:

 “precedida por Movimentos renovadores, como Ação Católica, Movimentos Sociais, CNBB (1952), CRB (1954), Plano de Emergência;

 concretizada pelo PPC (Plano de Pastoral de Conjunto, 1966-70);

 estimulada pelo intercâmbio com as Igrejas da América Latina (Rio de Janeiro, 1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979, Santo Domingo, 1992) e os Sínodos dos Bispos;

 prolongada nas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, no compromisso com a defesa dos direitos humanos, nas novas pastorais específicas, no apoio aos Movimentos populares;

 retomada nas Diretrizes Pastorais de 1979-82, na atuação da Igreja na década de ’80 e no processo constituinte, enquanto novas mudanças sociais e culturais abrem a década de ’90 e levam a uma nova proposta evangelizadora (DGAP 1991-1994), que enfrenta a questão da modernidade” (24).

“A caminhada da Igreja Católica no Brasil, nas últimas décadas, segue muito de perto as pegadas da renovação conciliar. Na verdade, as novas perspectivas pastorais abertas pelo Concílio encontraram entre nós uma Igreja que já vivia um surto renovador claramente perceptível. Herdeira de uma rica tradição de mais de quatro séculos de evangelização, cristalizada antes de tudo na fé simples do povo, a Igreja no Brasil foi fortemente enriquecida por Movimentos renovadores nas décadas que precederam o Concílio. Eles não só facilitaram a recepção do Concílio como possibilitaram as contribuições de Bispos brasileiros para a reflexão conciliar. Entre eles é preciso ressaltar os Movimentos Litúrgicos e Bíblico, a Ação Católica e os Movimentos Familiares, a abertura para as questões sociais e as iniciativas de renovação da Vida Religiosa e do Ministério Presbiterial” (25).

Sintetizando apresentamos alguns acontecimentos que marcaram e delinearam o rosto da Igreja que está no Brasil:

 no campo eclesial:

• Os Movimentos renovadores (litúrgico, bíblico, familiar, etc);

• Ação Católica – método VER-JULGAR-AGIR;

• Abertura e comprometimento com as questões sociais;

• Iniciativas de renovação da Vida Religiosa (surgimento de novas congregações) e do Ministério Presbiteral;

• A experiência das CEBs (I Encontro Intereclesial – Vitória, 1975);

• A contribuição da Teologia da Libertação;

• A atuação da CNBB (Plano Pastoral de Conjunto, “Exigências cristãs da ordem política” – 1977) e CRB;

• A abertura para com as outras Igrejas particulares na América Latina;

• A recepção das orientações pastorais das Conferências Gerais Episcopais e da doutrina dos documentos magisteriais da Igreja (Evangelii Nuntiandi – 1975; Sínodo dos Bispos – 1971, sobre “A justiça no Mundo”);

• Os pronunciamentos de algumas igrejas locais: “Testemunho da Paz” (Sul 1, S. Paulo, 1972), “Eu ouvi os clamores de meu povo” (Nordeste, 1973), “Marginalização de um povo – Grito das Igrejas” (Centro-Oeste, 1973);

• A Pastoral de Conjunto;

• O Conselho Nacional dos Leigos;

• “Catequese Renovada” – 1983;

• A retomada do ardor missionário.

 no campo social:

• A presença da Igreja no mundo rural e operário;

• O Movimento de Educação de Base, os Círculos Operários, a expansão do sindicalismo rural;

• Os Movimentos leigos;

• CIMI (Conselho Indigenista Missionário – 1972);

• Comissão Pastoral da Terra – 1975;

• A participação da Igreja no processo de redemocratização através do apoio às emendas populares à nova Constituição. “Por uma nova ordem constitucional” – 1986, “Exigências éticas da ordem democrática” – 1989;

• Cresce na Igreja a consciência da rápida transformação social, do radicalismo das mudanças culturais e dos desafios para evangelizar a sociedade atual: pluralista (cresce o pluralismo religioso), secularizada, individualista, estruturada não mais em valores cristãos;

• Documentos da CNBB.

HOJE É PRECISO:

“Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial. Na fé encontramos os rostos desfigurados pela fome, consequência da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não desprezada; os rostos aterrorizados pela violência diária e indiscriminada; os rostos angustiados dos menores abandonados que caminham pelas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos cansados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente” (DSD 178).

Concluindo este nosso estudo desejamos que o mesmo seja um estímulo a nos comprometermos cada vez mais com a causa do Reino, com os nossos irmãos pobres, e sobretudo revitalize no nosso coração o esforço de transformar a nossa fé em atos concretos de libertação em Jesus Cristo.



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(1) Compêndio do Vaticano II. Constituições, decretos, declarações, Introdução geral, Petropolis 1968, pg. 09.

(2) Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil. 1995-1998. Documentos da CNBB 54, São Paulo 1995, n. 29.

(3) Outras categorias teológicas são usadas nas diversas formulações da eclesiologia, como por exemplo, a categoria Igreja Corpo de Cristo, Igreja templo do Espírito Santo.

(4) V. CODINA, Para compreender la Eclesiología desde América Latina, Estella (Novana) 1990, pg. 170-171

(5) O uso do conceito eclesiológico de “recepção” é utilizado para podermos compreender o processo através do qual uma determinada Igreja local aplica as orientações doutrinárias, morais, jurídicas no concreto da vida da comunidade eclesial.

(6) Vale lembrar por exemplo que o Concilio Ecumênico de Trento levou mais de 300 anos para ser recepcionada pela Igreja.

(7) O processo de conversão da Igreja ao homem latino-americano foi acompanhado de uma profunda reflexão teológico-eclesiológica, baseada sobre um novo modelo de Igreja, que entendia a Igreja como Povo de Deus, reunido pelo amor libertador de Jesus Cristo.

(8) J. SOBRINO, Los documentos de Puebla. Serena afirmación de Medellín: “Puebla” 4 (1979) 198.

(9) II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Conclusões de Medellin, São Paulo, 1979, pg. 05.

(10) Ivi pg. 05.

(11) Ivi pg. 09.

(12) Opção pelo povo, opção pelos pobres, opção pela libertação integral, opção pela Igreja local, opção pelas Comunidades Eclesiais de Base

(13) Sobre esta temática são importantes os estudos históricos de E. DUSSEL, História da Igreja Latino-americana (1930 a 1985), São Paulo 1989; Ivi, (a cura), La Chiesa in America Latina: 1492-1992: il rovescio della storia, Assisi 1992.

(14) J. SOBRINO, Los documentos de Puebla ..., o. c., 71.

(15) Documento de Puebla n. 1149.

(16) G. GUTIÉRREZ, Teología de la Liberación. Perspectivas, Salamanca 1972, pg. 38.

(17) L. GALLO, Spiritualità dei movimenti, in A. FAVALE (ed.), Movimenti ecclesiali contemporanei. Dimensioni storiche, teologico-spirituali ed apostoliche, Roma 1980, pg. 450.

(18) J. PAULO II, Discurso inaugural pronunciado no Seminário Palafoxiano de Puebla de los Angeles, México, 28 de janeiro de 1979, in Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano. Puebla de los Angeles, México, 27-1 a 13-2 de 1979, São Paulo, 1979.

(19) II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Conclusões de Medellin, São Paulo, 1979, pg. 05

(20) Ivi pg. 09.

(21) J. Paulo II, Discurso inaugural, n. 6, in IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, 12-28 de outubro de 1992. Nova Evangelização, Promoção Humana, Cultura Cristã, Jesus Cristo Ontem, Hoje e Sempre, São Paulo 1992

(22) O DP 1135, na nota 331, constata que a pobreza não se restringe a mera questão da carência de bens materiais, mas atinge o “plano da dignidade humana”. Os pobres “carecem de uma plena participação social e política. Nesta categoria se encontram principalmente os nossos indígenas, camponeses, operários, marginalizados pela cidade e, especialmente, a mulher desses setores sociais, por sua condição duplamente oprimida e marginalizada”.

(23) “As opções pastorais são o processo de escolha que permite selecionar e descobrir a resposta pastoral aos desafios da evangelização, através da ponderação e análise das realidades positivas e negativas, vistas à luz do Evangelho” (DP 1299).

(24) Diretrizes gerais da ação ... o. c., pg. 27-28.

(25) Ivi n. 30.