domingo, 20 de junho de 2010


A IDENTIDADE HUMANO-DIVINA DO MESTRE


Y sucedió que mientras él estaba orando a solas, se hallaban con él los discípulos y él les preguntó: «¿Quién dice la gente que soy yo?»

Jesus anunciando a mensagem do Reino de Deus sente uma necessidade constante de dialogar com o Pai. Por isso, recolhe-se num lugar retirado, silencioso, para fazer esta experiência de intimidade, de diálogo amoroso com o Pai.

Este encontro narrado por Lucas tem uma peculiaridade: Jesus faz uma catequese orante. Ele deseja que seus discípulos percebam o nexo indissolúvel existente entre a sua pessoa e a mensagem que anuncia. Um outro ensinamento que deseja passar aos seus discípulos é que não existe o discípulo separado, ausente da vida do Mestre: aquilo que é importante para Ele, deve ser também importante para seus seguidores.

Através da pergunta que Jesus faz aos discípulos: “Que dizem o povo que eu sou?”, pretende averiguar a consciência que eles possuem da sua verdadeira identidade depois de um determinado tempo de convivência com Ele. A metodologia adotada por Jesus é aquela do confronto: vejamos o que o povo diz para ver se tem alguma relação com a experiência que estão fazendo individualmente e como grupo, ou seja, Jesus quer saber se os seus discípulos mais íntimos estão sendo capazes de ir além dos sinais que realiza e perceber a sua verdadeira identidade de Filho de Deus, salvador da humanidade.

Ellos respondieron: «Unos, que Juan el Bautista; otros, que Elías; otros, que un profeta de los antiguos había resucitado.»

É interessante observar que a resposta é coletiva. O verdadeiro evangelizador consegue perceber e ajudar a comunidade a purificar o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus Cristo. Vivemos hoje essa dificuldade de compreender a missão e a pessoa de Jesus Cristo. A infinidade de religiões e seitas que baseiam seus ensinamentos no Evangelho de Cristo apresenta para os seus seguidores uma imagem de Cristo que procura atender mais aos interesses das igrejas e grupos religiosos do que

Certamente Jesus fica desapontado com a resposta. Parece que o povo não consegue desvinculá-Lo das tradições religiosas judaicas, dos ditames da Antiga Lei. O povo olha para Jesus com os olhos no passado comparando sua missão e pessoa com outros líderes significativos da história da salvação judaica.

Jesus não se sente incomodado ao ser comparado com estes personagens bíblicos, mas deseja que seus discípulos estejam com o coração aberto para acolher a nova revelação, o tempo presente no qual Deus está operando a salvação da humanidade.

Les dijo: «Y vosotros, ¿quién decís que soy yo?» Pedro le contestó: «El Cristo de Dios.»

A pergunta de Jesus obriga os discípulos a repensarem a própria identidade religiosa: “Será que vocês estão pensando iguais a eles?” Em outras palavras, Jesus os convida a redefinirem suas vidas: “O que é que eu significo para vocês? O que vocês esperam de mim?”. O texto nos aponta para um contexto de profissão eclesial: o discípulo de Jesus vive a sua fé na comunidade eclesial. Na boca de Pedro é consumada uma profissão de fé: “Tu és o Filho de Deus”, que sintetiza todo o esforço que Jesus fez para que o grupo perceba o aspecto fundamental da existência daquela pequena comunidade. Está com Jesus, ser seu discípulo, é descobrir na sua pessoa, nos seus gestos e palavras a sua natureza humana e divina. Ele é o Filho de Deus feito homem.

Pero les mandó enérgicamente que no dijeran esto a nadie.

Falar deste mistério requer da comunidade uma caminhada, uma experiência com o Cristo ressuscitado. Esta verdade vivenciada no dia a dia com Jesus é uma verdade de fé. Não é uma conjectura cientifica ou postulado de teorias que necessitam de comprovação laboratorial. Cada discípulo fará o seu caminho por etapas de compromisso com o Evangelho de Cristo. A verdade do “Cristo Filho de Deus” não deve ser imposta a ninguém, mas exige todo um caminho pedagogicamente estruturado porque é um ensinamento que conduz à vida, à libertação do homem e de todo o homem.

Dijo: «El Hijo del hombre debe sufrir mucho, y ser reprobado por los ancianos, los sumos sacerdotes y los escribas, ser matado y resucitar al tercer día.»

Jesus deseja afastar dos seus discípulos uma concepção mágica de salvação triunfalista: Ele sendo Filho de Deus tudo pode realizar através do seu poder divino. A lógica divina não percorre o mesmo itinerário da lógica humana. Para salvar a humanidade Jesus necessita ser plenamente humano: necessita sofrer, morrer como todos os seres humanos; e ao mesmo tempo, ser plenamente divino, ressuscitar e reconstruir a vida em plenitude.

Decía a todos: «Si alguno quiere venir en pos de mí, niéguese a sí mismo, tome su cruz cada día, y sígame.

O discípulo de Jesus é anunciador desta verdade que causa escândalo e rejeição por parte dos judeus. E destes o Mestre exige quatro atitudes fundamentais:

- só podemos seguir Jesus na liberdade;

- devemos reconhecer que Ele é o Mestre e nós os discípulos;

- a capacidade de renunciar a si mesmo para assumir incondicionalmente sua missão;

- assumir a cruz de cada dia como exigência de fidelidade ao compromisso evangelizador;

- e segui-Lo no seu modo de ser todo de Deus e todo dos homens.

Porque quien quiera salvar su vida, la perderá; pero quien pierda su vida por mí, ése la salvará


* Texto da La Biblia de Jerusalén (Lucas 9,18-24)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O ROSTO DE DEUS PAI REVELADO EM JESUS CRISTO


"Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18).


Hoje assistimos um fenômeno peculiar da pós-modernidade em âmbito religioso: de um lado, o capitalismo materialista coloca a felicidade e realização da pessoa humana exclusivamente na posse dos bens materiais; e do outro lado, aumenta o número de pessoas à procura dos bens espirituais, e experiências religiosas. Se constata que estas pessoas ao buscarem uma experiência mais profunda com o transcendente, na maioria das vezes, ficam desnorteadas diante as dificuldades de escolher qual experiência fazer, que deus se aproximar, que religião assumir. Não é fácil no mundo de hoje definir quem é Deus e onde encontrá-lo para conhecê-lo: como encontrar Deus, como perceber o seu verdadeiro rosto no meio de tantos deuses e na confusão dos milhares de templos religiosos? Afinal, a problemática pode ser resumida na seguinte pergunta: Que Deus estou procurando?

Para o cristão, a Bíblia é o lugar privilegiado da experiência de Deus. No Antigo Testamento, Deus escolhe um povo e aos poucos vai se revelando na história deste povo eleito. Mas é somente no Novo Testamento, através de Jesus Cristo que Deus revela a seu verdadeiro rosto: um Deus Trino - Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -, escândalo para os judeus, e insignificância especulativa para os gregos.

Proposta de um texto para reflexão:

"Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer. Tudo o que ele fizer, fará igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. E lhe mostrará ainda coisas maiores que estas, das quais ficareis maravilhados. Como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, também o Filho dá vida a quem quer. Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida. Não posso fazer nada por mim mesmo. Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. As obras que o Pai me deu para cumprir eu as faço e dão testemunho que o Pai me enviou. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, nem conservais em vós sua palavra porque não credes naquele que me enviou. Percorreis as Escrituras, pensando ter nelas a vida eterna, mas elas também dão testemunho de mim, e vós não quereis vir a mim para terdes a vida!". (Jo 5, 19s)

A experiência paterna de Jesus:

 Ele nos fala do Pai a partir de sua íntima relação com Ele: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18). "Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus" (Jo 3,2). Jesus é a face humana do Pai: "Ninguém jamais viu o Pai, senão aquele que veio de Deus" (Jo 6,46).

 Jesus tem consciência de ser uno com o Pai: "Eu e o Pai somos um".

 Jesus se reconhece como Filho de Deus, Cordeiro de Deus. Tem plena consciência de sua filiação divina. Reconhecendo esta filiação testemunha João Batista: "Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus" (Jo 1,34).

 Ele fala constantemente com o Pai na oração, na solidão.

 Jesus é zeloso das coisas do Pai: "Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes" (Jo 2,16).

 Ele age sob a autoridade do Pai: "Meu Pai continua agindo ... "(Jo 5,17). "Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6,38).

 Jesus é o Filho amado do Pai: Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único para salvar o mundo.

 Ele recebe do Pai uma missão: dá aos homens a vida eterna (cf. Jo 3,16). E a sua missão não é condenar, mas salvar (cf. Jo 3,17).

 Jesus se sente amado pelo Pai: "O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas" (Jo 3,35).

O rosto paterno de Deus que Jesus nos revela:

1. Um Pai que tem uma predileção especial para com os doentes, os pobres, os marginalizados.

2. Um Pai que condena o pecado e deseja a salvação do pecador.

3. Um Pai preocupado com o destino de seus filhos.

4. Um Pai que tem um projeto de vida para seus filhos: a construção do Reino na história dos homens.

5. Um Pai que deve ser adorado pelos filhos: "Nós adoramos o que conhecemos" (Jo 4,24). Ele deseja ser adorado em espírito e verdade (cf. Jo 4,24).

6. Um Pai que reúne os filhos ao redor da mesa para partilhar o pão nosso de cada dia.

7. Um Pai que congrega os seus filhos em comum-unidade (Igreja).

8. Um Pai que alimenta os filhos oferecendo do seu próprio pão: "Meu Pai é que vos doa, do céu, o pão verdadeiro. O pão de Deus é aquele que desceu do céu e doa a vida ao mundo" (Jo 6,32b-33).

9. Um Pai que participa da dor e do sofrimento da humanidade, das suas angústias e esperanças.

10. Um Pai que faz questão em dialogar intimamente com cada um de seus filhos no silêncio da oração.

Deus Pai é para Jesus:

 um Pai misericordioso.

 um Pai que confia nos seus filhos.

 um Pai que ama infinitamente os filhos e por eles tudo faz.

 um Pai paciente e persistente, que espera a conversão dos filhos.

 um Pai presença na vida dos filhos.

 um Pai vigilante e zeloso.

 um Pai exigente.

 um Pai que ama a justiça e a verdade.

 um Pai que não discrimina, acolhe todos.

 um Pai que deseja ver todos os seus filhos unidos formando uma só família.

 um Pai que envolve todos os seus filhos no seu projeto de salvação.

 um Pai que conhece as necessidades de seus filhos.

 um Pai que é plena comunhão trinitária.

Convite à reflexão e meditação:

• Texto proposto: Jo 5, 19-24.

• Questionamentos:

 Qual a experiência que fiz até hoje da paternidade de Deus?

 Que traços da paternidade de Deus percebo mais marcante na minha espiritualidade?

 Sinto-me verdadeiramente amado por Deus Pai?

 Sou apaixonado por Deus Pai como era Jesus?

 Quais as experiências que aceitei a correção amorosa do Pai e que foi para mim conversão, libertação?

 Como vivo na minha comunidade a dimensão da fraternidade como filhos e filhas do mesmo Pai?