domingo, 23 de julho de 2017

A CORRUPÇÃO: CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS E COMBATE

          Vivemos atualmente no Brasil um momento de convulsão politica sem precedente na história do país, causada pela situação de denúncias de graves crimes de corrupção praticadas pela classe politica dirigente, que coloca em xeque a credibilidade do próprio poder legislativo.
          A instabilidade governamental ocasionada pela crise politica repercute especialmente na área econômica, que assola não só o Brasil, mas o mundo capitalista nos últimos anos. Diante da gravidade da situação muito tem se debatido se é possível identificar suas causas, consequências e modos de combatê-la efetivamente.
          A corrupção é uma grave ameaça ao projeto de desenvolvimento social e econômico de qualquer país, porque não permite que a riqueza produzida seja distribuída de maneira igualitária, beneficiando apenas a algumas pessoas ou determinado grupo social.
              O termo “corrupção” vem do latim corruptus, que significa quebrado em pedaços. O verbo corromper significa “tornar pútrido”. Para Armando Pires a corrupção “inclui o uso de bens ou postos públicos para benefício próprio, nepotismo, evasão fiscal, o favorecimento de certos grupos económicos, e a promiscuidade entre o sector público e privado”[1].
          Somente a partir da década de 90 é que o tema da corrupção passa a ser estudado de modo mais sistemático, sobretudo por economistas, que começam a refletir sobre as graves consequências a nível sócio-econômicas produzidos pelo fenômeno da corrupção[2]. Segundo Luís Felipe Velloso de Sá, economista e membro fundador da ONG Transparência Capixaba, “as consequências da corrupção ultrapassam os limites da moral e da ética e atingem, perversamente, a vida de seres humanos. Acreditem a corrupção mata!” [3].
          Segundo Eduardo de Freitas:

A corrupção pode ser definida como utilização do poder ou autoridade para conseguir obter vantagens e fazer uso do dinheiro público para o seu próprio interesse, de um integrante da família ou amigo[4].

          Não existe um fator determinante político, social ou econômico que condicione a existência do fenômeno da corrupção a um determinado país, considerando seu grau de desenvolvimento econômico ou posicionamento geográfico. Segundo os estudiosos da politica brasileira a corrupção no governo tem sua origem e raízes profundas sedimentadas muito antes do governo de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma já na década de 60, no governo golpista dos militares de 1964.
            Podemos classificar as corrupções em dois tipos básicos: corrupção ativa e corrupção passiva. Por corrupção ativa se denomina a ação de oferecer vantagem indevida a um funcionário público permutando por algum benefício. A corrupção passiva só pode ser praticada por um funcionário público.
          Diante da propagação da corrupção em grande escala, generalizada, abrangendo vários setores da sociedade surgiu o conceito de "corrupção sistêmica". A corrupção sistêmica torna a corrupção e sua prática rotineira e normal, sobretudo nas instituições governamentais e grandes empresas. Ela se torna, portanto, parte efetiva do sistema. No Brasil, o caso da Operação Lava Jato é um exemplo de corrupção sistêmica, que desvendou grandes esquemas de corrupção, apurados pela Polícia Federal.
          No campo da política propriamente dita podemos falar de corrupção política. Esse tipo de corrupção envolve diretamente os funcionários do governo que utilizam suas competências legisladas para atingir fins privados ilegítimos. Calil Simão afirma que a corrupção política se refere “ao uso do poder público para proveito, promoção ou prestígio particular, ou em benefício de um grupo ou classe, de forma que constitua violação da lei ou de padrões de elevada conduta moral”[5].
            As formas de corrupção são múltiplas. Entre essas formas podemos elencar o suborno, o fisiologismo, o nepotismo, o peculato, o clientelismo, a extorsão.
          A Transparência Internacional publica desde 1995 um relatório anualmente chamado de Índice de Percepções de Corrupção, onde define cada país do mundo de acordo com o grau de corrupção detectado entre os funcionários públicos e os funcionários políticos. Em 2005 o Brasil ocupava a 62 posição juntamente com Belize, com valoração de 3,7. Em 2016 ocupa o 79[6].
A corrupção no Brasil não é um fato novo ou recente que se tornou conhecida após a decretação e operacionalização da Operação Lava Jato. Ela está enraizada historicamente na sociedade brasileira desde o início do período da invasão portuguesa através do processo colonização e exploração das terras dos brasis. Neste processo a população que vai configurando a nação brasileira, na sua maioria pobre e marginalizada, permaneceu fora do usufruto das riquezas nacionais: “A população, majoritariamente pobre sempre esteve às margens das vontades das elites, que cobram impostos, taxas, juros, porém não repassam em qualidade de vida para os contribuintes”[7]
          Sabemos que a corrupção não possui apenas uma única causa. Thiago Xavier de Andrade ao analisar as possíveis causas da corrupção brasileira, principalmente no âmbito da administração pública, considerando o processo histórico-cultural brasileiro e buscando identificar suas raízes, destaca as seguintes causas: as grandes desigualdades sociais, sustentada pela má distribuição de renda; ausência de princípios éticos ou morais e condições materiais propícias para a ocorrência do crime; a certeza da impunibilidade do crime; o crescimento da máquina estatal e sua exagerada burocratização que incentiva o clientelismo e o patrimonialismo; o domínio do executivo sobre o legislativo; a ditadura militar; o cooporativismo nos setores administrativos; ineficiência do poder público no combate a corrupção[8].
              E nos perguntamos: o que fazer? Como combater a corrupção num pais em que esta se tornou o modus vivendi do ser político e administrador dos bens públicos serem corruptos? O economista e cientista político Manoel Galdino, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, diz que não existe uma fórmula pronta e eficaz para erradicar do Brasil de modo sumário, definitivo a corrupção[9]. Entre os estudiosos e representantes de organizações de combate à corrupção circulam várias estratégias e atitudes concretas que estão em andamento e outras que necessitam serem implementadas e gerenciadas, fiscalizadas pela sociedade. Dentre as quais podemos enumerar:
- a urgente reforma do sistema politico brasileiro;
- a refundação dos partidos políticos, através de uma profunda revisão de seus postulados e referenciais teóricos, de suas estruturas institucionais e financeiras;
- diminuir o apadrinhamento político no Executivo;
- buscar a superação da “desigualdade jurídica do cidadão e do operador do Estado" (Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp)[10].
- aproximar a comunidade da fiscalização do dinheiro público;
- rever juridicamente a questão das doações realizadas por pessoas físicas, considerando que desde as disputas eleitorais de 2016, ficaram proibidas as doações empresariais (pessoas jurídicas) para campanhas políticas de qualquer partido político, e definir o custo das campanhas eleitorais;
- a desvinculação dos argumentos que tentam justificar a inutilidade de combater a corrupção, visto que ela está enraizada na cultura do povo brasileiro e que necessitará de muitas gerações para que possa mudar. Armando Pires salienta que não se pode esquecer que “alguns dos países menos corruptos hoje em dia, Suécia e Singapura, já foram dos mais corruptos no passado, Suécia até o século XVIII e Singapura até aos anos 60 do século XX”[11];
- preservar o sector público contra a corrupção;
- criação de unidades de anticorrupção independentes do poder político, que sejam comprometidas especialmente em denunciar os casos de corrupção[12].
          É importante destacar que a aplicação da Lei 12.850, que regulou as delações premiadas, possibilitou nos últimos anos um número significativo de prisões temporárias e preventivas e de flagrantes de corruptos acusados de desvio de verbas públicas. Segundo os dados da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor), da Polícia Federal, citados por Marcelo Godoy e Daniel Bramatti, no Jornal O Estado de São Paulo, assevera que “no ano passado, dez pessoas foram presas a cada semana por agentes federais em operações de combate ao desvio de verbas públicas”[13].
          O povo brasileiro não pode ficar na atitude de mero espectador da situação de corrupção que o país vive achando que todas aas soluções devem vir do alto, dos poderosos, de uma elite intelectual iluminada que tem resposta para todos os problemas ou de políticos cadastrados no rol da corrupção.
          Não podemos deixar é que a premonição profética do professor Bruno Pinheiro Wanderley Reis, cientista político da UFMG, se torne realidade na nossa Pátria Mãe gentil:

Não é possível acabar com a corrupção, mas sim, mantê-la em níveis mais aceitáveis. que não provoque tantos danos ao pais. O que vemos agora são alguns empresários presos, que denunciam políticos e, mais cedo ou mais tarde, irão para suas mansões com tornozeleiras. Os políticos, por sua vez, seguirão no mesmo passo. Fiquem atentos ao Sérgio Cabral e Eduardo Cunha...logo, logo, quando diminuir o furdunço, estarão de volta. O mesmo com Dirceu. Sempre haverá algum meio de escaparem, algum motivo "nobre" "humanista", afinal, coitados, foram apenas "vítimas de um sistema". Roberto Jefferson que o diga![14]

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Thiago Xavier de. As possíveis causas da corrupção brasileira. Disponível em: <http://ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista _artigos_ leitura&artigo_id=13754&revista_caderno=27>. Acesso em: 19.06.2017.

BREI, Zani Andrade. A corrupção: causas, consequências e soluções para o problema. Disponível em: . Acesso em 20.06.2017.

Corrupção no Brasil – Resumo Quadro Político e Social x Ética e Moral. Disponível em: < http://not1.xpg.uol.com.br/corrupcao-no-brasil-resumo-quadro-politico-e-social-x-etica-e-moral/>. Acesso em 21.06.2017.

FREITAS, Eduardo. O que é corrupção. Disponível em: < http://mundoeduca cao.bol.uol.com.br/geografia/o-que-corrupcao.htm>. Acesso em: 21.06.2017.


GODOY, Marcelo; BRAMATTI, Daniel. Prisões por corrupção no Brasil crescem 288%. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/ noticias/ geral ,desde-2013-prisoes-por-corrupcao-crescem-288,70001861023>. Acesso em: 22.07.2017.

PIRES, Armando.  Como combater a corrupção? Disponível em: < https: //www.publico.pt/2013/12/01/economia/noticia/como-combater-a-corrupcao-1614543>. Acesso em 22.06.2017.

SÁ, Luís Filipe Vellozo de. Corrupção: causas e consequências. Disponível em: <http://praiadexangrila.com.br/corrupcao-causas-e-consequencias/>. Acesso em: 22.06.2017.
SIMÃO, Calil. Improbidade Administrativa - Teoria e Prática. Leme: J. H. Mizuno, 2011.




[1] PIRES, Armando. Como combater a corrupção? Disponível em: < https://www.publico.pt/ 2013/12/01/economia/noticia/como-combater-a-corrupcao-1614543>. Acesso em 22.06.2017.

[2] Para um estudo aprofundado das origens do fenômeno da corrupção e de seus efeitos cf. BREI, Zani Andrade. A corrupção: causas, consequências e soluções para o problema. Disponível em: . Acesso em 20.06.2017. Neste estudo o autor apresenta as explicações das causas, consequências e funções da corrupção, segundo as três perspectivas elaboradas por Johnston para a explicar a corrupção: as explanações personalísticas, as explanações institucionais, as explanações sistêmicas.

[3] SÁ, Luís Filipe Vellozo de. Corrupção: causas e consequências. Disponível em: <http:// praiadexangrila.com.br/corrupcao-causas-e-consequencias/>. Acesso em: 22.06.2017.

[4] FREITAS, Eduardo. O que é corrupção. Disponível em: < http://mundoeducacao.bol.uol. com.br/geografia/o-que-corrupcao.htm>. Acesso em: 21.06.2017.
[6] Frequently Asked Questions: TI Corruption Perceptions Index (CPI 2005). Disponível em: < https://translate.google.com.br/translate?hl=it&sl=en&u=https://www.transparency.org/research/cpi/cpi_2005/0/&prev=search>. Acesso em: 23.06.2017.

[7] Corrupção no Brasil – Resumo Quadro Político e Social x Ética e Moral. Disponível em: < http://not1.xpg.uol.com.br/corrupcao-no-brasil-resumo-quadro-politico-e-social-x-etica-e-moral/ >. Acesso em 21.06.2017.

[8] ANDRADE, Thiago Xavier de. As possíveis causas da corrupção brasileira. Disponível em: <http://ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=13754&revista_ca derno=27>. Acesso em: 19.06.2017.

[9] FUJITA, Gabriela. É possível reduzir ou acabar com a corrupção? Conheça oito receitas. Disponível em: . Acesso em: 20.06.2015.

[10] FUJITA, Gabriela. É possível reduzir ou acabar com a corrupção? Conheça oito receitas. Disponível em: . Acesso em: 20.06. 2015.

[11] PIRES, Armando.  Como combater a corrupção? Disponível em: < https://www.publico .pt/ 2013/12/01/economia/noticia/como-combater-a-corrupcao-1614543>. Acesso em 22.06. 2017. Armando complementa afirmando: “O que fizeram a Suécia e Singapura para ultrapassar uma cultura enraizada de práticas corruptas? Segundo Jakob Svensson (Stockholm School of Economics), estes países seguiram uma estratégia com enfoque em cinco dimensões: (1) salários, meritocracia e cultura de excelência na função pública; (2) unidades de anticorrupção independentes do poder político; (3) denúncia dos casos de corrupção; (4) vontade política; (5) abordagem sistémica e integrada da problemática da corrupção”.

[12] PIRES, Armando. Como combater a corrupção? Disponível em: <https://www.publico.pt/ 2013/12/01/economia/noticia/como-combater-a-corrupcao->. Acesso em: 22.06.2017.
[13] GODOY, Marcelo; BRAMATTI, Daniel. Prisões por corrupção no Brasil crescem 288%. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,desde-2013-prisoes-por-corrupcao-crescem-288,70001861023>. Acesso em: 22.07.2017. “Já no primeiro ano depois da lei [Lei 12.850/2013], em 2014, o número de prisões concedidas pela Justiça e flagrantes nessas operações chegou a 2.798 e somou 4.122 em 2016 – aumento de 771% em comparação com as 473 registradas em 2013”.

[14] FUJITA, Gabriela. É possível reduzir ou acabar com a corrupção? Conheça oito receitas. Disponível em: . Acesso em: 20.06. 2015.

quinta-feira, 21 de março de 2013


UM APELO A RECONCILIAÇÃO: A FESTA DOS RECONCILIADOS

“Este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”


Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: "Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!" Então Jesus contou-lhes esta parábola: Jesus continuou: "Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, me dá a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu, e partiu para um lugar distante. E aí esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome nessa região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para a roça, cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a lavagem que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam. Então, caindo em si, disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome...

 
Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados'. Então se levantou, e foi ao encontro do pai. Quando ainda estava longe, o pai o avistou, e teve compaixão, saiu correndo, o abraçou, e o cobriu de beijos.
Então o filho disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: 'Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés.

Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'. E começaram a festa. O filho mais velho estava na roça. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança.  Então chamou um dos criados, e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: 'É seu irmão que voltou. E seu pai, porque o recuperou são e salvo, matou o novilho gordo'. Então, o irmão ficou com raiva, e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo!'  Então o pai lhe disse: 'Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu.

Mas, era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado."
UM CONVITE AO ACOLHIMENTO DO PECADOR

O texto do Evangelho de Lucas 15,1-3.11-32 nos propõe uma reflexão sobre a temática da reconciliação.
A discussão do tema emerge num cenário polêmico em que Jesus encontra-se dialogando com dois grupos aparentemente antagônicos: os publicanos e pecadores, que buscam o Mestre para ouvir sua doutrina, e os mestres da Lei, que se ocupam em criticar as atitudes e a pregação de Jesus.

Como gerenciar este conflito inevitável? A prática pedagógica libertadora de Jesus perpassa a superficialidade da questão para penetrar na consciência de seus interlocutores, levando-os a perceber o contexto globalizante de qualquer ação humana. Ninguém pode ser julgado por uma ação que pratica de modo isolado de todo o contexto de sua vida. Jesus deixa claro a necessidade de se analisar outras questões e modos de ver a realidade, que podem dificultar o acolhimento e desenvolvimento da verdadeira imagem de Deus, que deseja ver todos os seus filhos e filhas vivendo reconciliados.

O “PECADO” DE JESUS
As características gerais destes dois grupos se definem em relação à pessoa de Jesus: um grupo deseja ouvir sua Palavra, e o outro a criticá-lo e desautorizar seu ensinamento religioso.

A primeira crítica feita a Jesus pelos mestres da Lei diz respeito a sua convivência e identificação com os pecadores: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!”.

Jesus não só fala para o grupo dos publicanos e pecadores, mas convive com eles. Existe, portanto, uma convivência social, vivencial, de Jesus com este determinado grupo de pessoas consideradas pelos judeus como pecadores, pessoas afastadas e impossibilitadas do diálogo de fé com Deus. A questão para os mestres da Lei é como justificar segundo os critérios da fé judaica a possibilidade de está no meio de pecadores sem se identificar (inclusive no pecado) com eles? Para eles a atitude de Jesus é injustificável diante da Lei. Misturou-se contaminado do pecado ficou.

A estratégia adotada por Jesus evita entrar em discussão direta com os mestres da Lei, mas propõe uma reflexão através de uma parábola, colocando deste modo as bases para um diálogo que implique na reflexão racional do objeto em discussão. Jesus pretende estabelecer um diálogo que não seja estéril, um diálogo que vá além da exposição de doutrinas e concepções religiosas. O verdadeiro diálogo que produz reconciliação é baseado em partilha de vivências, opções e convicções.
UMA CENA DESCONCERTANTE E INTRIGANTE
A parábola lucana apresenta três personagens: o pai e seus dois filhos.

Podemos perceber na trama da parábola a existência de três caminhos percorridos pelo pai, pelo filho mais novo e pelo filho mais velho, que tendem a uma única síntese e mensagem teológica: liberdade humana → escolha de vida → consequências na vida prática das escolhas realizadas → exame de consciência → processo de reestruturação (perdoar e ser perdoado) → experiência da misericórdia de Deus.
O cenário da parábola é a casa do pai. A vida junto do pai significa para os filhos a segurança, a alegria, a afetividade, viver num clima familiar. Viver longe da casa do pai é uma escolha que implica na experiência do pecado, do abandono, da solidão. A felicidade humana é posta nesta parábola como uma escolha pessoal, intransferível: viver perto ou longe de Deus é um modo de viver. Não é uma imposição de Deus aos homens.
Passemos a considerar as atitudes dos três personagens:

1. O filho mais novo:
- deseja realizar novas aventuras e experiência de vida: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”.

- compreende sua vida numa dimensão puramente materialista: deseja a herança, a segurança sugerida pela posse das coisas materiais. Não se preocupa com as pessoas com as quais convive. Vive uma vida egocêntrica.

- rompe os laços afetivos com o pai e o irmão: “juntou o que era seu”, afastando-se para não ter nenhuma interferência do pai no seu novo modo de viver. Por isso, vai para longe da casa do pai. Parece não mais querer nenhuma interferência do pai em sua vida. Sente-se capaz de caminhar sozinho.
- seduzido pelos bens materiais esbanja tudo que possui numa vida desenfreada, sem nenhum controle em pouco tempo. Quer aproveitar todas as novidades e prazeres que o dinheiro possibilita.

- demonstra não possuir ainda a consciência da transitoriedade da vida: “gastou tudo o que tinha”. Tudo passa...
- a experiência de ir ao fundo do poço: “começou a passar fome... caiu em si”, o leva a refletir sobre a miséria que sua vida se tornara longe da casa do pai.

- não obstante sua debilidade moral, física e espiritual empreende com coragem a decisão de refazer o caminho: “vou voltar para meu pai”.

- reconhece as próprias limitações como uma atitude de pecado, de ruptura: “pai, pequei contra Deus e contra te” e busca reencontrar o sentido da própria vida através do exercício da humildade.
2. O filho mais velho:

- mostra-se inserido na comunidade familiar.

- assiste sem intervir a decisão do irmão mais novo em deixar a casa paterna.
- questiona a atitude benevolente do pai que acolhe festivamente seu irmão mais novo.

- tem dificuldade em compreender a atitude reconciliadora do pai para com seu irmão resgatado, depois de tudo o que ele fizera com os bens que recebera e com a própria vida: “ficou com raiva e não queria entrar”. Fazendo uma crítica impiedosa (sem misericórdia) às atitudes do irmão sem reconhecer a fragilidade humana.
3. O pai:

- dispensa seu amor paterno aos seus filhos.  
- atende prontamente ao pedido do filho mais novo, vendo na experiência que o filho deseja realizar uma oportunidade de amadurecimento humano e espiritual.

- espera sempre o retorno do filho.
- expressa um gesto de acolhimento marcado pela compaixão quando o filho retorna: “correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijo”.

- acolhe sem restrições e questionamentos o pedido de perdão do filho.
- se alegra e faz uma festa porque quer comunicar a todos a imensa alegria que seu coração de pai sente com o retorno de seu filho que estava perdido: “trazei tudo o que tem de melhor para o filho que retorna a casa do pai paterna” (túnica: símbolo da vida nova; anel: símbolo do poder compartilhado entre todos os reconciliados; sandálias: símbolo do servidor, do missionário que se dispõe a comunicar aos irmãos as maravilhas que Deus realiza na vida dos reconciliados; novilho gordo: símbolo do acolhimento, da partilha, da mesa farta onde todos se sentem verdadeiramente irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai).

- processa uma releitura do retorno do filho como um momento único, irrecusável na sua missão de pai: “este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”.
- ajuda o filho mais velho a interpretar a vivência de seu irmão mais novo sob uma nova perspectiva ajudando-o a perceber o valor da reconciliação, da alegria do reencontro e do diálogo construtivo de novas relações familiares: “é o teu irmão que voltou”.

O RECONCILIADOR NO MEIO DOS PECADORES
Podemos nos perguntar: teria Jesus com esta parábola superado o conflito ideológico-religioso com os mestres da Lei?

A noção teológica que Lucas delineia nesta perícope é essencialmente uma imagem paterna que exprime misericórdia em todas as suas atitudes. Compreender quem é Deus requer do crente a disponibilidade para percorrer o caminho feito pelo “filho pródigo”, ou seja, mergulhar na mais profunda miséria humana, e a partir desta situação existencial penetrar na realidade mistérica do coração amoroso de Deus: conduzir o ser humano da morte para a vida plena.
O homem que pretende hoje fazer uma experiência de Deus, em primeiro lugar há que se encontrar não com a imagem de um Deus legislador, moralista, mas com um Pai que o acolhe com misericórdia, aberto a reconciliação, e o torna um ser misericordioso para consigo mesmo e para com os outros.

A reconciliação exige um resgaste do que estava perdido e do que estava morto. É um ato de acolhimento a pessoa do pecador. Jesus mostra claramente aos mestres da Lei que sua missão, confiada pelo Pai, é aquela de resgatar a humanidade da situação de pecado, de morte para reconduzi-la à Vida, à casa paterna de Deus Pai. Jesus se coloca no meio dos pecadores não para se tornar um pecador, mas para resgatar a dignidade da pessoa humana corrompida pelo pecado.
A reconciliação com Deus exige um caminho de encontro, de aceitação de si mesmo, um constante “cair em si mesmo”, para projetar-nos num itinerário de permanente renovação humano-espiritual. Participar da festa dos reconciliados é o convite que Deus faz a todos os homens e mulheres que desejam construir e viver num mundo mais justo e mais fraterno.

E concluímos com o pensamento de Ananda Lopes:

Amar não é retornar a tudo de antes. Amar é fazer uma nova história de amor a cada reconciliação”.
 


 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A ESPERA DE UM MILAGRE


Podemos viver uma etapa da vida a espera de um milagre ou um grande milagre, que poderá transformará radicalmente nossa existência. Vamos percebendo aos poucos com o passar do tempo, com um certo desespero, que o milagre talvez não venha a acontecer, e que não temos o controle do tempo que passa rápido demais. O mal que nos cerceia parece ser mais forte do que todos os nossos desejos de libertação e superação. E nos vemos atraídos e seduzidos por um poder satânico, que não conseguimos decifrar seu poder dominador sobre nossa vida. E cada dia que passa vai paulatinamente minando todas as esperanças e esforços de ver realizado o tão desejado milagre.

UMA LONGA ESPERA

A espera é longa, adentra dias e dias, sem nenhuma esperança da chegada do escolhido. O tempo avança e parece destruir toda semente plantada para ser replantada e perpetuar a espécie. De vez em quando retorna o pensamento, e uma voz sussurra ao coração: “Espera mais um pouco. Ele está chegando”. Mas é apenas uma voz que percebo a distância quilométrica de sua ressonância. Não passa apenas de uma voz. Não pode trazer nenhuma certeza, nenhum alivio que possa fortalecer a alma e revigorar as forças.

Talvez a maior tragédia que se aproxima é a sensação de impotência de desejar repassar o conhecimento e a proximidade da morte chegando e não se poder reverter nem uma vírgula do destino traçado. A espera de um milagre é na verdade a espera da compreensão do próprio mistério da vida, que não repousa no esperado, mas em mim mesmo. Talvez não tenha nada pra deixar para os outros e nem pra mim mesmo.

A espera de um milagre se parece com um porto construído numa ilha desconhecida que aguarda ansiosamente pelo desembarque de algum navio. É como um sonho que se insiste em sonhar acordado, mesmo percebendo a impossibilidade de tudo que estamos imaginando e desejando de olhos abertos. A espera de um milagre é o ato de reconhecimento de nossa suprema impotência diante de nós mesmos.

A VIDA NÃO ESPERA

Existem pessoas que passam a vida inteira esperando por este momento. E concluem a sua existência sem verem realizado o milagre. E podemos nos perguntar: de quem depende a realização do milagre? Depende do mérito de uma vida exemplar? Do esforço de perfeição? De uma recompensa divina? É verdade que existem forças misteriosas que atuam na realização dele. Não sabemos de onde vem e nem para onde vai. Desconhecemos o momento em que vão agir sobre nós e os outros.

A GRATUIDADE DA ESPERA

Parece que o milagre começa a acontecer no momento em que começo a perceber a gratuidade de cada momento que me é concedido para viver com todas as suas possibilidades de crescimento, e correspondo a esse movimento interior com uma decidia e irrevogável abertura de espírito. Nada se impõe e tudo pode ser transformado de dentro para fora e de fora para dentro.

O milagre quer atender as expectativas de quem deseja vê-lo realizado e em quem vai acontecer. No profundo do desejo está a realidade da mudança: mudança de vida, mudança de modo de pensar e agir, mudança no modo de ser e de se colocar diante da própria vida. O milagre é dinâmico e processual. Às vezes somos tentados a penar que ele acontece todo e de uma vez. Existem etapas de avanços e recuos, de certezas e incertezas, de vida e de morte.

O vigilante ficou a noite toda esperando o visitante indesejado. Ele não veio. Contudo, os olhos embriagados pelo sono da longa e cansativa espera, se conformam com a ausência que não se torna presença. A atenção é redobrada em qualquer movimento que possa sinalizar uma presença. É a expectativa do milagre. Nesta longa espera vigilante o milagre já está acontecendo.

O MILAGRE DA FÉ

E a fé onde entra neste milagre? É a última esperança de que alguma coisa possa mudar. Quando já estão esgotadas todas as outras possibilidades o ultimo olhar se prospecta na direção do infinito. Essa atitude chamamos de fé. Ela ajuda a colocar os pés no chão. Não importa se neste chão corre sangue untado de dores e sofrimentos. É o chão da vida, da realidade dura e crua de cada dia. É o chão da fé que nutre de coragem, de perseverança os passos cambaleantes, incertos. “Não é fácil dispensar o chão em que se pisa”, para poder se ficar forte e vencer as batalhas, e vencer uma batalha de cada vez.

Os caminhos de Deus são difíceis de serem aceitos quando estamos seduzidos, enfeitiçados pelo mal, pelos prazeres que o mundo oferece. A escolha é nossa: ao escolher o mal parece que escolhemos a melhor parte, a verdadeira felicidade, mas na verdade ficamos iludidos pelas aparências. O mal planta e colhe o mal. Afastar-se do plano de Deus implica numa escolha que em alguns casos é difícil de retornar depois. No ato da nossa liberdade repousa a possibilidade de ser livres ou danificar pra sempre a nossa vida.

Os sonhos terminam onde começamos a dizer para nós mesmos que preferimos o nosso egoísmo, que não estamos dispostos a mudar radicalmente nosso modo de viver a própria vida. Os sonhos são uma possibilidade de abertura em direção do futuro, que se constrói somente no momento presente.

Existe um olhar sobre nós mesmos que reflete o olhar que temos sobre os outros. A perspectiva de onde podemos partir – o que eu gostaria ou poderia ser – indica para onde podemos nos projetar e nos abrirmos ao verdadeiro milagre da fé: encontrar-se em Deus e se auto-encontrar Nele.

Tu podes mudar, não o mundo, mas a ti mesmo. É necessário descobrir o caminho para chegar ao mais profundo de si mesmo. É preciso deixar o único milagre acontecer.

A maior força que trazes não está nos teus músculos, mas no profundo de tua alma: a força do amor, a força do bem, a força do verdadeiro milagre.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A PROVAÇÃO DE JESUS, (Lc 4, 1-13)


Jesus, cheio do Espírito Santo, afastou-se do Jordão e deixou-se levar pelo espírito ao deserto, durante quarenta dias, enquanto o Diabo, o punha à prova. Nesse tempo não comeu nada, e no fim sentiu fome. O Diabo lhe disse: Se és o Filho de Deus, diz a essa pedra que se transforme em pão. Replicou-lhe Jesus: Está escrito que o homem não vive somente de pão. Depois o levou a uma altura e lhe mostrou num instante todos os reinos do mundo. O Diabo lhe disse: Eu te darei todo esse poder e sua glória, porque o deram a mim, e o dou a quem quero. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. Replicou-lhe Jesus: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a ele prestarás culto. Então o conduziu a Jerusalém, colocou-o no beiral do templo e lhe disse: Se és o Filho de Deus, lança-te para baixo, pois está escrito que deu ordens a seus anjos para que te guardem e te levarão em suas palmas, para que teu pé não tropece na pedra. Replicou-lhe Jesus: Está dito que não porás à prova o Senhor teu Deus. Concluída a prova, o Diabo afastou-se dele até outra ocasião.

* Jesus está cheio do Espírito de Deus que conduz cada decisão de sua vida. Nós podemos está cheios do nosso próprio espírito, e procurando nos guiar pelos nossos próprios pensamentos e ações sem nada questionar e tudo aceitar. O desafio para o cristão do mundo de hoje é ser capaz de deixar-se guiar pelo Espírito. O Espírito conduz às experiências novas e inesperadas. Conduz sem oferecer garantias e seguranças. Transporta de uma situação existencial para outra situação, muitas vezes oposta. O Espírito desinstala o cristão de suas comodidades e provoca uma constante conversão espiritual rumo ao deserto, em direção ao essencial da vida humana – a vida segundo o Espírito.

* A ida ao deserto é uma experiência de procura, de encontro pessoal e solitário com o Pai. É uma solidão-encontro procurada pelo coração sedento do amor, do aconchego, da orientação do Pai. Mas também é o lugar da tentação, da provação, do amadurecimento da fé. Ir ao deserto significa colocar-se a caminho, iniciar um itinerário de desapego de si mesmo e de confiança total em Deus. No deserto a tentação cumpre a tarefa de purificar o nosso espírito, as nossas intenções, os nossos projetos humanos para que se tornem projetos de Deus.

* Jesus nada come e sente fome. O que alimenta a nossa vida? O que nos sacia? Temos fome de Deus, da sua Palavra, do seu amor? A tentação do ter, da posse dos bens materiais e das pessoas pode criar a falta convicção de que podemos tudo: “Se és Filho de Deus transforma\ essa pedra em pão”. O dinheiro parece ter o poder de realizar o impossível. “O Diabo lhe disse: Eu te darei todo esse poder e sua glória”. Muitos acreditam que quem tem dinheiro tem poder para resolver todos os problemas, curar todos os males e ser plenamente feliz. Entretanto, a realidade dos fatos mostra que essa tentação humana pode criar no coração humano a falsa ilusão que adorando o deus do ter encontrará a felicidade, a paz, a justiça e o amor. “Se te prostrares diante de mim, tudo será teu”.

* “Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a ele prestarás culto”. Será que existe alguma coisa em comum entre os falsos adoradores e os verdadeiros adoradores de Deus? O que significa adorar a Deus? O problema não está na coisa em si que pode ser adorada, mas no modo como o crente se relaciona com essas as coisas. Essas coisas e pessoas estão ocupando o lugar de Deus na minha vida? A quem ou a que coisa eu me curvo todos os dias: ao dinheiro? a fama? aos objetos de estimação? à vontade em um amigo? aos vícios e pecados?

A provação de Jesus é um estímulo para sua ação missionária na medida em que se torna também o nosso itinerário de provação, de purificação, de santidade. Não é finalizada em si mesma. A provação do discípulo de Jesus prova o cristão e o conduz para uma ação transformadora da sua vida, da comunidade eclesial e do mundo em que vive.