quinta-feira, 21 de março de 2013


UM APELO A RECONCILIAÇÃO: A FESTA DOS RECONCILIADOS

“Este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”


Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: "Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!" Então Jesus contou-lhes esta parábola: Jesus continuou: "Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, me dá a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu, e partiu para um lugar distante. E aí esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome nessa região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para a roça, cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a lavagem que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam. Então, caindo em si, disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome...

 
Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados'. Então se levantou, e foi ao encontro do pai. Quando ainda estava longe, o pai o avistou, e teve compaixão, saiu correndo, o abraçou, e o cobriu de beijos.
Então o filho disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: 'Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés.

Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'. E começaram a festa. O filho mais velho estava na roça. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança.  Então chamou um dos criados, e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: 'É seu irmão que voltou. E seu pai, porque o recuperou são e salvo, matou o novilho gordo'. Então, o irmão ficou com raiva, e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo!'  Então o pai lhe disse: 'Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu.

Mas, era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado."
UM CONVITE AO ACOLHIMENTO DO PECADOR

O texto do Evangelho de Lucas 15,1-3.11-32 nos propõe uma reflexão sobre a temática da reconciliação.
A discussão do tema emerge num cenário polêmico em que Jesus encontra-se dialogando com dois grupos aparentemente antagônicos: os publicanos e pecadores, que buscam o Mestre para ouvir sua doutrina, e os mestres da Lei, que se ocupam em criticar as atitudes e a pregação de Jesus.

Como gerenciar este conflito inevitável? A prática pedagógica libertadora de Jesus perpassa a superficialidade da questão para penetrar na consciência de seus interlocutores, levando-os a perceber o contexto globalizante de qualquer ação humana. Ninguém pode ser julgado por uma ação que pratica de modo isolado de todo o contexto de sua vida. Jesus deixa claro a necessidade de se analisar outras questões e modos de ver a realidade, que podem dificultar o acolhimento e desenvolvimento da verdadeira imagem de Deus, que deseja ver todos os seus filhos e filhas vivendo reconciliados.

O “PECADO” DE JESUS
As características gerais destes dois grupos se definem em relação à pessoa de Jesus: um grupo deseja ouvir sua Palavra, e o outro a criticá-lo e desautorizar seu ensinamento religioso.

A primeira crítica feita a Jesus pelos mestres da Lei diz respeito a sua convivência e identificação com os pecadores: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!”.

Jesus não só fala para o grupo dos publicanos e pecadores, mas convive com eles. Existe, portanto, uma convivência social, vivencial, de Jesus com este determinado grupo de pessoas consideradas pelos judeus como pecadores, pessoas afastadas e impossibilitadas do diálogo de fé com Deus. A questão para os mestres da Lei é como justificar segundo os critérios da fé judaica a possibilidade de está no meio de pecadores sem se identificar (inclusive no pecado) com eles? Para eles a atitude de Jesus é injustificável diante da Lei. Misturou-se contaminado do pecado ficou.

A estratégia adotada por Jesus evita entrar em discussão direta com os mestres da Lei, mas propõe uma reflexão através de uma parábola, colocando deste modo as bases para um diálogo que implique na reflexão racional do objeto em discussão. Jesus pretende estabelecer um diálogo que não seja estéril, um diálogo que vá além da exposição de doutrinas e concepções religiosas. O verdadeiro diálogo que produz reconciliação é baseado em partilha de vivências, opções e convicções.
UMA CENA DESCONCERTANTE E INTRIGANTE
A parábola lucana apresenta três personagens: o pai e seus dois filhos.

Podemos perceber na trama da parábola a existência de três caminhos percorridos pelo pai, pelo filho mais novo e pelo filho mais velho, que tendem a uma única síntese e mensagem teológica: liberdade humana → escolha de vida → consequências na vida prática das escolhas realizadas → exame de consciência → processo de reestruturação (perdoar e ser perdoado) → experiência da misericórdia de Deus.
O cenário da parábola é a casa do pai. A vida junto do pai significa para os filhos a segurança, a alegria, a afetividade, viver num clima familiar. Viver longe da casa do pai é uma escolha que implica na experiência do pecado, do abandono, da solidão. A felicidade humana é posta nesta parábola como uma escolha pessoal, intransferível: viver perto ou longe de Deus é um modo de viver. Não é uma imposição de Deus aos homens.
Passemos a considerar as atitudes dos três personagens:

1. O filho mais novo:
- deseja realizar novas aventuras e experiência de vida: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”.

- compreende sua vida numa dimensão puramente materialista: deseja a herança, a segurança sugerida pela posse das coisas materiais. Não se preocupa com as pessoas com as quais convive. Vive uma vida egocêntrica.

- rompe os laços afetivos com o pai e o irmão: “juntou o que era seu”, afastando-se para não ter nenhuma interferência do pai no seu novo modo de viver. Por isso, vai para longe da casa do pai. Parece não mais querer nenhuma interferência do pai em sua vida. Sente-se capaz de caminhar sozinho.
- seduzido pelos bens materiais esbanja tudo que possui numa vida desenfreada, sem nenhum controle em pouco tempo. Quer aproveitar todas as novidades e prazeres que o dinheiro possibilita.

- demonstra não possuir ainda a consciência da transitoriedade da vida: “gastou tudo o que tinha”. Tudo passa...
- a experiência de ir ao fundo do poço: “começou a passar fome... caiu em si”, o leva a refletir sobre a miséria que sua vida se tornara longe da casa do pai.

- não obstante sua debilidade moral, física e espiritual empreende com coragem a decisão de refazer o caminho: “vou voltar para meu pai”.

- reconhece as próprias limitações como uma atitude de pecado, de ruptura: “pai, pequei contra Deus e contra te” e busca reencontrar o sentido da própria vida através do exercício da humildade.
2. O filho mais velho:

- mostra-se inserido na comunidade familiar.

- assiste sem intervir a decisão do irmão mais novo em deixar a casa paterna.
- questiona a atitude benevolente do pai que acolhe festivamente seu irmão mais novo.

- tem dificuldade em compreender a atitude reconciliadora do pai para com seu irmão resgatado, depois de tudo o que ele fizera com os bens que recebera e com a própria vida: “ficou com raiva e não queria entrar”. Fazendo uma crítica impiedosa (sem misericórdia) às atitudes do irmão sem reconhecer a fragilidade humana.
3. O pai:

- dispensa seu amor paterno aos seus filhos.  
- atende prontamente ao pedido do filho mais novo, vendo na experiência que o filho deseja realizar uma oportunidade de amadurecimento humano e espiritual.

- espera sempre o retorno do filho.
- expressa um gesto de acolhimento marcado pela compaixão quando o filho retorna: “correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijo”.

- acolhe sem restrições e questionamentos o pedido de perdão do filho.
- se alegra e faz uma festa porque quer comunicar a todos a imensa alegria que seu coração de pai sente com o retorno de seu filho que estava perdido: “trazei tudo o que tem de melhor para o filho que retorna a casa do pai paterna” (túnica: símbolo da vida nova; anel: símbolo do poder compartilhado entre todos os reconciliados; sandálias: símbolo do servidor, do missionário que se dispõe a comunicar aos irmãos as maravilhas que Deus realiza na vida dos reconciliados; novilho gordo: símbolo do acolhimento, da partilha, da mesa farta onde todos se sentem verdadeiramente irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai).

- processa uma releitura do retorno do filho como um momento único, irrecusável na sua missão de pai: “este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”.
- ajuda o filho mais velho a interpretar a vivência de seu irmão mais novo sob uma nova perspectiva ajudando-o a perceber o valor da reconciliação, da alegria do reencontro e do diálogo construtivo de novas relações familiares: “é o teu irmão que voltou”.

O RECONCILIADOR NO MEIO DOS PECADORES
Podemos nos perguntar: teria Jesus com esta parábola superado o conflito ideológico-religioso com os mestres da Lei?

A noção teológica que Lucas delineia nesta perícope é essencialmente uma imagem paterna que exprime misericórdia em todas as suas atitudes. Compreender quem é Deus requer do crente a disponibilidade para percorrer o caminho feito pelo “filho pródigo”, ou seja, mergulhar na mais profunda miséria humana, e a partir desta situação existencial penetrar na realidade mistérica do coração amoroso de Deus: conduzir o ser humano da morte para a vida plena.
O homem que pretende hoje fazer uma experiência de Deus, em primeiro lugar há que se encontrar não com a imagem de um Deus legislador, moralista, mas com um Pai que o acolhe com misericórdia, aberto a reconciliação, e o torna um ser misericordioso para consigo mesmo e para com os outros.

A reconciliação exige um resgaste do que estava perdido e do que estava morto. É um ato de acolhimento a pessoa do pecador. Jesus mostra claramente aos mestres da Lei que sua missão, confiada pelo Pai, é aquela de resgatar a humanidade da situação de pecado, de morte para reconduzi-la à Vida, à casa paterna de Deus Pai. Jesus se coloca no meio dos pecadores não para se tornar um pecador, mas para resgatar a dignidade da pessoa humana corrompida pelo pecado.
A reconciliação com Deus exige um caminho de encontro, de aceitação de si mesmo, um constante “cair em si mesmo”, para projetar-nos num itinerário de permanente renovação humano-espiritual. Participar da festa dos reconciliados é o convite que Deus faz a todos os homens e mulheres que desejam construir e viver num mundo mais justo e mais fraterno.

E concluímos com o pensamento de Ananda Lopes:

Amar não é retornar a tudo de antes. Amar é fazer uma nova história de amor a cada reconciliação”.
 


 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A ESPERA DE UM MILAGRE


Podemos viver uma etapa da vida a espera de um milagre ou um grande milagre, que poderá transformará radicalmente nossa existência. Vamos percebendo aos poucos com o passar do tempo, com um certo desespero, que o milagre talvez não venha a acontecer, e que não temos o controle do tempo que passa rápido demais. O mal que nos cerceia parece ser mais forte do que todos os nossos desejos de libertação e superação. E nos vemos atraídos e seduzidos por um poder satânico, que não conseguimos decifrar seu poder dominador sobre nossa vida. E cada dia que passa vai paulatinamente minando todas as esperanças e esforços de ver realizado o tão desejado milagre.

UMA LONGA ESPERA

A espera é longa, adentra dias e dias, sem nenhuma esperança da chegada do escolhido. O tempo avança e parece destruir toda semente plantada para ser replantada e perpetuar a espécie. De vez em quando retorna o pensamento, e uma voz sussurra ao coração: “Espera mais um pouco. Ele está chegando”. Mas é apenas uma voz que percebo a distância quilométrica de sua ressonância. Não passa apenas de uma voz. Não pode trazer nenhuma certeza, nenhum alivio que possa fortalecer a alma e revigorar as forças.

Talvez a maior tragédia que se aproxima é a sensação de impotência de desejar repassar o conhecimento e a proximidade da morte chegando e não se poder reverter nem uma vírgula do destino traçado. A espera de um milagre é na verdade a espera da compreensão do próprio mistério da vida, que não repousa no esperado, mas em mim mesmo. Talvez não tenha nada pra deixar para os outros e nem pra mim mesmo.

A espera de um milagre se parece com um porto construído numa ilha desconhecida que aguarda ansiosamente pelo desembarque de algum navio. É como um sonho que se insiste em sonhar acordado, mesmo percebendo a impossibilidade de tudo que estamos imaginando e desejando de olhos abertos. A espera de um milagre é o ato de reconhecimento de nossa suprema impotência diante de nós mesmos.

A VIDA NÃO ESPERA

Existem pessoas que passam a vida inteira esperando por este momento. E concluem a sua existência sem verem realizado o milagre. E podemos nos perguntar: de quem depende a realização do milagre? Depende do mérito de uma vida exemplar? Do esforço de perfeição? De uma recompensa divina? É verdade que existem forças misteriosas que atuam na realização dele. Não sabemos de onde vem e nem para onde vai. Desconhecemos o momento em que vão agir sobre nós e os outros.

A GRATUIDADE DA ESPERA

Parece que o milagre começa a acontecer no momento em que começo a perceber a gratuidade de cada momento que me é concedido para viver com todas as suas possibilidades de crescimento, e correspondo a esse movimento interior com uma decidia e irrevogável abertura de espírito. Nada se impõe e tudo pode ser transformado de dentro para fora e de fora para dentro.

O milagre quer atender as expectativas de quem deseja vê-lo realizado e em quem vai acontecer. No profundo do desejo está a realidade da mudança: mudança de vida, mudança de modo de pensar e agir, mudança no modo de ser e de se colocar diante da própria vida. O milagre é dinâmico e processual. Às vezes somos tentados a penar que ele acontece todo e de uma vez. Existem etapas de avanços e recuos, de certezas e incertezas, de vida e de morte.

O vigilante ficou a noite toda esperando o visitante indesejado. Ele não veio. Contudo, os olhos embriagados pelo sono da longa e cansativa espera, se conformam com a ausência que não se torna presença. A atenção é redobrada em qualquer movimento que possa sinalizar uma presença. É a expectativa do milagre. Nesta longa espera vigilante o milagre já está acontecendo.

O MILAGRE DA FÉ

E a fé onde entra neste milagre? É a última esperança de que alguma coisa possa mudar. Quando já estão esgotadas todas as outras possibilidades o ultimo olhar se prospecta na direção do infinito. Essa atitude chamamos de fé. Ela ajuda a colocar os pés no chão. Não importa se neste chão corre sangue untado de dores e sofrimentos. É o chão da vida, da realidade dura e crua de cada dia. É o chão da fé que nutre de coragem, de perseverança os passos cambaleantes, incertos. “Não é fácil dispensar o chão em que se pisa”, para poder se ficar forte e vencer as batalhas, e vencer uma batalha de cada vez.

Os caminhos de Deus são difíceis de serem aceitos quando estamos seduzidos, enfeitiçados pelo mal, pelos prazeres que o mundo oferece. A escolha é nossa: ao escolher o mal parece que escolhemos a melhor parte, a verdadeira felicidade, mas na verdade ficamos iludidos pelas aparências. O mal planta e colhe o mal. Afastar-se do plano de Deus implica numa escolha que em alguns casos é difícil de retornar depois. No ato da nossa liberdade repousa a possibilidade de ser livres ou danificar pra sempre a nossa vida.

Os sonhos terminam onde começamos a dizer para nós mesmos que preferimos o nosso egoísmo, que não estamos dispostos a mudar radicalmente nosso modo de viver a própria vida. Os sonhos são uma possibilidade de abertura em direção do futuro, que se constrói somente no momento presente.

Existe um olhar sobre nós mesmos que reflete o olhar que temos sobre os outros. A perspectiva de onde podemos partir – o que eu gostaria ou poderia ser – indica para onde podemos nos projetar e nos abrirmos ao verdadeiro milagre da fé: encontrar-se em Deus e se auto-encontrar Nele.

Tu podes mudar, não o mundo, mas a ti mesmo. É necessário descobrir o caminho para chegar ao mais profundo de si mesmo. É preciso deixar o único milagre acontecer.

A maior força que trazes não está nos teus músculos, mas no profundo de tua alma: a força do amor, a força do bem, a força do verdadeiro milagre.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A PROVAÇÃO DE JESUS, (Lc 4, 1-13)


Jesus, cheio do Espírito Santo, afastou-se do Jordão e deixou-se levar pelo espírito ao deserto, durante quarenta dias, enquanto o Diabo, o punha à prova. Nesse tempo não comeu nada, e no fim sentiu fome. O Diabo lhe disse: Se és o Filho de Deus, diz a essa pedra que se transforme em pão. Replicou-lhe Jesus: Está escrito que o homem não vive somente de pão. Depois o levou a uma altura e lhe mostrou num instante todos os reinos do mundo. O Diabo lhe disse: Eu te darei todo esse poder e sua glória, porque o deram a mim, e o dou a quem quero. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. Replicou-lhe Jesus: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a ele prestarás culto. Então o conduziu a Jerusalém, colocou-o no beiral do templo e lhe disse: Se és o Filho de Deus, lança-te para baixo, pois está escrito que deu ordens a seus anjos para que te guardem e te levarão em suas palmas, para que teu pé não tropece na pedra. Replicou-lhe Jesus: Está dito que não porás à prova o Senhor teu Deus. Concluída a prova, o Diabo afastou-se dele até outra ocasião.

* Jesus está cheio do Espírito de Deus que conduz cada decisão de sua vida. Nós podemos está cheios do nosso próprio espírito, e procurando nos guiar pelos nossos próprios pensamentos e ações sem nada questionar e tudo aceitar. O desafio para o cristão do mundo de hoje é ser capaz de deixar-se guiar pelo Espírito. O Espírito conduz às experiências novas e inesperadas. Conduz sem oferecer garantias e seguranças. Transporta de uma situação existencial para outra situação, muitas vezes oposta. O Espírito desinstala o cristão de suas comodidades e provoca uma constante conversão espiritual rumo ao deserto, em direção ao essencial da vida humana – a vida segundo o Espírito.

* A ida ao deserto é uma experiência de procura, de encontro pessoal e solitário com o Pai. É uma solidão-encontro procurada pelo coração sedento do amor, do aconchego, da orientação do Pai. Mas também é o lugar da tentação, da provação, do amadurecimento da fé. Ir ao deserto significa colocar-se a caminho, iniciar um itinerário de desapego de si mesmo e de confiança total em Deus. No deserto a tentação cumpre a tarefa de purificar o nosso espírito, as nossas intenções, os nossos projetos humanos para que se tornem projetos de Deus.

* Jesus nada come e sente fome. O que alimenta a nossa vida? O que nos sacia? Temos fome de Deus, da sua Palavra, do seu amor? A tentação do ter, da posse dos bens materiais e das pessoas pode criar a falta convicção de que podemos tudo: “Se és Filho de Deus transforma\ essa pedra em pão”. O dinheiro parece ter o poder de realizar o impossível. “O Diabo lhe disse: Eu te darei todo esse poder e sua glória”. Muitos acreditam que quem tem dinheiro tem poder para resolver todos os problemas, curar todos os males e ser plenamente feliz. Entretanto, a realidade dos fatos mostra que essa tentação humana pode criar no coração humano a falsa ilusão que adorando o deus do ter encontrará a felicidade, a paz, a justiça e o amor. “Se te prostrares diante de mim, tudo será teu”.

* “Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a ele prestarás culto”. Será que existe alguma coisa em comum entre os falsos adoradores e os verdadeiros adoradores de Deus? O que significa adorar a Deus? O problema não está na coisa em si que pode ser adorada, mas no modo como o crente se relaciona com essas as coisas. Essas coisas e pessoas estão ocupando o lugar de Deus na minha vida? A quem ou a que coisa eu me curvo todos os dias: ao dinheiro? a fama? aos objetos de estimação? à vontade em um amigo? aos vícios e pecados?

A provação de Jesus é um estímulo para sua ação missionária na medida em que se torna também o nosso itinerário de provação, de purificação, de santidade. Não é finalizada em si mesma. A provação do discípulo de Jesus prova o cristão e o conduz para uma ação transformadora da sua vida, da comunidade eclesial e do mundo em que vive.

TEMPO DE DESERTO E RENO-AÇÃO


O Retiro Espiritual é um tempo privilegiado de oração, um tempo de graça que Deus nos concede para realizarmos uma experiência de renovação espiritual.


O Retiro Espiritual exige do retirante uma atitude de estar disposto a fazer um caminho de conversão e redirecionar a caminhada. Quando alguém se dispõe a fazer o Retiro não deve está atrás de novidades, de experiências exotéricas. O Retiro é um tempo de escuta, de silêncio que a maioria das pessoas não estão acostumadas a fazer. Parece que vivemos na geração dos filhos do barulho. Mas o silêncio é essencial para poder ouvir a voz de Deus; “Fala Senhor teu servo escuta!”. Por isso é necessário fazer calar as vozes dentro de nós: as vozes descontroladas do nosso “eu”.

Tema: Lc 4,1-13

A experiência de Jesus no deserto: lugar das tentações, escolhas e purificação.

Jesus é conduzido ao deserto pelo Espírito (experiência espiritual).

Jesus é tentado pelo diabo durante 40 dias.

O jejum e a fome.

A tentação do poder: “Se tu és o Filho de Deus manda que esta pedra se torne pão.”

- tempo de revisão de vida: olhar com profundidade sobre a própria realidade pessoal para converter-se.

Qual é a minha realidade pessoal: quem sou eu? O que busco? Minhas certezas? Minhas frustrações?

- tempo de escuta da Palavra de Deus: silêncio para deixar Deus falar. A Palavra questiona o nosso modo de ser e de viver.

- tempo de crescimento espiritual: conhecer meu caminho espiritual: em que deve crescer? O que me falta para amar e servir os meus irmãos? O que devo fazer para crescer no espírito de oração? Qual o tempo que devo dedicar a oração pessoal na minha vida?

- tempo de deixar-se guiar pelo Mestre da oração: Jesus de Nazaré.

Ele quer nos ensinar a amar de verdade. Amor a Deus e aos irmãos.

Tema: Mc 1,21-28

Jesus e os discípulos chegaram à cidade de Cafarnaum, e, no sábado, ele foi ensinar na sinagoga. As pessoas que o escutavam ficaram muito admiradas com a sua maneira de ensinar. É que Jesus ensinava com a autoridade dele mesmo e não como os mestres da Lei. Então chegou ali um homem que estava dominado por um espírito mau. O homem gritou: O que quer de nós, Jesus de Nazaré? Você veio para nos destruir? Sei muito bem quem é você: é o Santo que Deus enviou! Então Jesus ordenou ao espírito mau: — Cale a boca e saia desse homem! Aí o espírito sacudiu o homem com violência e, dando um grito, saiu dele. Todos ficaram espantados e diziam uns para os outros: — Que quer dizer isso? É um novo ensinamento dado com autoridade. Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem. E a fama de Jesus se espalhou depressa por toda a região da Galiléia.

* Jesus estar com seus discípulos. Caminha e convive com eles. Dedica-se ao ensinamento.

* As pessoas estão dispostas a ouvi-lo. E nós estamos dispostos a ouvir quem? Por que ou pelo que nos deixamos guiar?

* Jesus não seleciona as pessoas para se aproximarem dele. Todos podem chegar perto dele.

* A presença do homem dominado pelo espírito mau. Quantos espíritos maus habitam dentro de nós?

* O espírito mau se confronta com a pessoa de Jesus. Diante dele o homem se questiona sobre si mesmo: o que queres de mim?

* A presença de Jesus incomoda, questionar porque ele conhece o mais profundo dos nossos sonhos e desejos. Ele sabe o que se passa com a nossa vida. Ele conhece os demônios que podem estar nos dominando. Ele é o Santo de Deus capaz de liberta o homem dos seus demônios e reconstruir a sua vida plenamente.

* O espírito mau pretende questionar a ação de Jesus: “você veio para nos destruir?”. Quando Jesus nos aponta os nossos demônios estamos dispostos a deixar que Jesus os destrua? Quem é mais forte para nós: a força libertadora de Jesus ou a escravidão dos demônios?

* Quando optamos por Jesus ele nos liberta: Cale a boca e sai desse homem!

* O caminho da libertação:

- momento de profunda crise: “o espírito sacudiu o homem com violência”. Tudo é questionado e revisto: nossas convicções, nossa fé, nosso modo de pensar e agir, nossas decisões. A nossa casa desmorona e devemos começar a reconstruí-la pedra sob pedra.

- quem sou eu e o que sou chamado a ser seguindo Jesus? Onde ficam as minhas verdades e certezas? São as mesmas de Jesus: Ele é “o caminho, a verdade e a vida”.

Tema: Mc 8, 34-38

Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma? Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.

* Jesus faz um convite à nossa liberdade: “se alguém quer vir após mim”. Ser discípulo de Jesus é colocar-se a caminho, percorrendo etapas de crescimento, vencendo os obstáculos do caminho, tendo um objetivo a alcançar na vida.

* O que significa negar a si mesmo? Prevalência do nosso “eu”, dos nossos projetos, da vida vivida para si mesmo

* Tomar a cruz de cada dia significa assumir todos os imprevistos, acontecimentos, sofrimentos, sacrifícios inerentes a existência humana como caminho de salvação e participação na cruz de Cristo.

* Seguir o Mestre é um desafio muito grande num mundo em que cada pessoa segue o seu próprio modo de pensar e agir. Colocar-se aos pés de Jesus para ouvir os seus ensinamentos.

* O que significa salvar e perder a vida?

* Perder a vida por causa de Jesus e do seu Evangelho.

* O dilema: ganhar o mundo inteiro e perder a alma?

Tema: Lc 5, 12-16

Certa vez Jesus estava numa cidade onde havia um homem que tinha o corpo todo coberto de lepra. Quando viu Jesus, o leproso se ajoelhou diante dele, encostou o rosto no chão e pediu: - Senhor, eu sei que o senhor pode me curar se quiser! Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: - Sim! Eu quero. Você está curado. No mesmo instante a lepra desapareceu. Então Jesus lhe deu esta ordem: - Escute! Não conte isso para ninguém, mas vá pedir ao sacerdote que examine você. Depois, a fim de provar para todos que você está curado, vá oferecer o sacrifício que Moisés ordenou. Mas as notícias a respeito de Jesus se espalhavam ainda mais, e muita gente vinha para ouvi-lo e para ser curada das suas doenças. Porém Jesus ia para lugares desertos e orava.

* O nosso corpo está cheio de que tipo de lepra? O que está nos consumindo por dentro e por fora?

* As pessoas com que convivemos vêem por fora. Jesus ver o nosso interior.

* A atitude de humildade diante de Jesus: cair aos seus pés, rosto no chão.

* Jesus vem ao nosso encontro: estende a mão para curar.

* A vontade de Jesus e a nossa vontade.

* É necessário vir ao seu encontro para ouvi-lo.

* Jesus procurava lugares desertos e orava.

* O que podemos encontrar nos lugares desertos e como Jesus orava?

* A oração de Jesus é um diálogo com o Pai. Relata os acontecimentos da vida, do que ocorreu durante o dia (dificuldades, superações, projetos).

- Os mandamentos: caminho de purificação e renovação de vida.

- A dinâmica da Lei de Deus para a construção da comunidade: a obediência a Deus e ao seu projeto (a experiência do povo na escravidão do Egito).

- O primeiro e o maior dos mandamentos: amar a Deus e aos irmãos.

domingo, 20 de junho de 2010


A IDENTIDADE HUMANO-DIVINA DO MESTRE


Y sucedió que mientras él estaba orando a solas, se hallaban con él los discípulos y él les preguntó: «¿Quién dice la gente que soy yo?»

Jesus anunciando a mensagem do Reino de Deus sente uma necessidade constante de dialogar com o Pai. Por isso, recolhe-se num lugar retirado, silencioso, para fazer esta experiência de intimidade, de diálogo amoroso com o Pai.

Este encontro narrado por Lucas tem uma peculiaridade: Jesus faz uma catequese orante. Ele deseja que seus discípulos percebam o nexo indissolúvel existente entre a sua pessoa e a mensagem que anuncia. Um outro ensinamento que deseja passar aos seus discípulos é que não existe o discípulo separado, ausente da vida do Mestre: aquilo que é importante para Ele, deve ser também importante para seus seguidores.

Através da pergunta que Jesus faz aos discípulos: “Que dizem o povo que eu sou?”, pretende averiguar a consciência que eles possuem da sua verdadeira identidade depois de um determinado tempo de convivência com Ele. A metodologia adotada por Jesus é aquela do confronto: vejamos o que o povo diz para ver se tem alguma relação com a experiência que estão fazendo individualmente e como grupo, ou seja, Jesus quer saber se os seus discípulos mais íntimos estão sendo capazes de ir além dos sinais que realiza e perceber a sua verdadeira identidade de Filho de Deus, salvador da humanidade.

Ellos respondieron: «Unos, que Juan el Bautista; otros, que Elías; otros, que un profeta de los antiguos había resucitado.»

É interessante observar que a resposta é coletiva. O verdadeiro evangelizador consegue perceber e ajudar a comunidade a purificar o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus Cristo. Vivemos hoje essa dificuldade de compreender a missão e a pessoa de Jesus Cristo. A infinidade de religiões e seitas que baseiam seus ensinamentos no Evangelho de Cristo apresenta para os seus seguidores uma imagem de Cristo que procura atender mais aos interesses das igrejas e grupos religiosos do que

Certamente Jesus fica desapontado com a resposta. Parece que o povo não consegue desvinculá-Lo das tradições religiosas judaicas, dos ditames da Antiga Lei. O povo olha para Jesus com os olhos no passado comparando sua missão e pessoa com outros líderes significativos da história da salvação judaica.

Jesus não se sente incomodado ao ser comparado com estes personagens bíblicos, mas deseja que seus discípulos estejam com o coração aberto para acolher a nova revelação, o tempo presente no qual Deus está operando a salvação da humanidade.

Les dijo: «Y vosotros, ¿quién decís que soy yo?» Pedro le contestó: «El Cristo de Dios.»

A pergunta de Jesus obriga os discípulos a repensarem a própria identidade religiosa: “Será que vocês estão pensando iguais a eles?” Em outras palavras, Jesus os convida a redefinirem suas vidas: “O que é que eu significo para vocês? O que vocês esperam de mim?”. O texto nos aponta para um contexto de profissão eclesial: o discípulo de Jesus vive a sua fé na comunidade eclesial. Na boca de Pedro é consumada uma profissão de fé: “Tu és o Filho de Deus”, que sintetiza todo o esforço que Jesus fez para que o grupo perceba o aspecto fundamental da existência daquela pequena comunidade. Está com Jesus, ser seu discípulo, é descobrir na sua pessoa, nos seus gestos e palavras a sua natureza humana e divina. Ele é o Filho de Deus feito homem.

Pero les mandó enérgicamente que no dijeran esto a nadie.

Falar deste mistério requer da comunidade uma caminhada, uma experiência com o Cristo ressuscitado. Esta verdade vivenciada no dia a dia com Jesus é uma verdade de fé. Não é uma conjectura cientifica ou postulado de teorias que necessitam de comprovação laboratorial. Cada discípulo fará o seu caminho por etapas de compromisso com o Evangelho de Cristo. A verdade do “Cristo Filho de Deus” não deve ser imposta a ninguém, mas exige todo um caminho pedagogicamente estruturado porque é um ensinamento que conduz à vida, à libertação do homem e de todo o homem.

Dijo: «El Hijo del hombre debe sufrir mucho, y ser reprobado por los ancianos, los sumos sacerdotes y los escribas, ser matado y resucitar al tercer día.»

Jesus deseja afastar dos seus discípulos uma concepção mágica de salvação triunfalista: Ele sendo Filho de Deus tudo pode realizar através do seu poder divino. A lógica divina não percorre o mesmo itinerário da lógica humana. Para salvar a humanidade Jesus necessita ser plenamente humano: necessita sofrer, morrer como todos os seres humanos; e ao mesmo tempo, ser plenamente divino, ressuscitar e reconstruir a vida em plenitude.

Decía a todos: «Si alguno quiere venir en pos de mí, niéguese a sí mismo, tome su cruz cada día, y sígame.

O discípulo de Jesus é anunciador desta verdade que causa escândalo e rejeição por parte dos judeus. E destes o Mestre exige quatro atitudes fundamentais:

- só podemos seguir Jesus na liberdade;

- devemos reconhecer que Ele é o Mestre e nós os discípulos;

- a capacidade de renunciar a si mesmo para assumir incondicionalmente sua missão;

- assumir a cruz de cada dia como exigência de fidelidade ao compromisso evangelizador;

- e segui-Lo no seu modo de ser todo de Deus e todo dos homens.

Porque quien quiera salvar su vida, la perderá; pero quien pierda su vida por mí, ése la salvará


* Texto da La Biblia de Jerusalén (Lucas 9,18-24)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O ROSTO DE DEUS PAI REVELADO EM JESUS CRISTO


"Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18).


Hoje assistimos um fenômeno peculiar da pós-modernidade em âmbito religioso: de um lado, o capitalismo materialista coloca a felicidade e realização da pessoa humana exclusivamente na posse dos bens materiais; e do outro lado, aumenta o número de pessoas à procura dos bens espirituais, e experiências religiosas. Se constata que estas pessoas ao buscarem uma experiência mais profunda com o transcendente, na maioria das vezes, ficam desnorteadas diante as dificuldades de escolher qual experiência fazer, que deus se aproximar, que religião assumir. Não é fácil no mundo de hoje definir quem é Deus e onde encontrá-lo para conhecê-lo: como encontrar Deus, como perceber o seu verdadeiro rosto no meio de tantos deuses e na confusão dos milhares de templos religiosos? Afinal, a problemática pode ser resumida na seguinte pergunta: Que Deus estou procurando?

Para o cristão, a Bíblia é o lugar privilegiado da experiência de Deus. No Antigo Testamento, Deus escolhe um povo e aos poucos vai se revelando na história deste povo eleito. Mas é somente no Novo Testamento, através de Jesus Cristo que Deus revela a seu verdadeiro rosto: um Deus Trino - Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -, escândalo para os judeus, e insignificância especulativa para os gregos.

Proposta de um texto para reflexão:

"Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer. Tudo o que ele fizer, fará igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. E lhe mostrará ainda coisas maiores que estas, das quais ficareis maravilhados. Como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, também o Filho dá vida a quem quer. Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida. Não posso fazer nada por mim mesmo. Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. As obras que o Pai me deu para cumprir eu as faço e dão testemunho que o Pai me enviou. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, nem conservais em vós sua palavra porque não credes naquele que me enviou. Percorreis as Escrituras, pensando ter nelas a vida eterna, mas elas também dão testemunho de mim, e vós não quereis vir a mim para terdes a vida!". (Jo 5, 19s)

A experiência paterna de Jesus:

 Ele nos fala do Pai a partir de sua íntima relação com Ele: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (Jo 1,18). "Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus" (Jo 3,2). Jesus é a face humana do Pai: "Ninguém jamais viu o Pai, senão aquele que veio de Deus" (Jo 6,46).

 Jesus tem consciência de ser uno com o Pai: "Eu e o Pai somos um".

 Jesus se reconhece como Filho de Deus, Cordeiro de Deus. Tem plena consciência de sua filiação divina. Reconhecendo esta filiação testemunha João Batista: "Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus" (Jo 1,34).

 Ele fala constantemente com o Pai na oração, na solidão.

 Jesus é zeloso das coisas do Pai: "Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes" (Jo 2,16).

 Ele age sob a autoridade do Pai: "Meu Pai continua agindo ... "(Jo 5,17). "Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6,38).

 Jesus é o Filho amado do Pai: Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único para salvar o mundo.

 Ele recebe do Pai uma missão: dá aos homens a vida eterna (cf. Jo 3,16). E a sua missão não é condenar, mas salvar (cf. Jo 3,17).

 Jesus se sente amado pelo Pai: "O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas" (Jo 3,35).

O rosto paterno de Deus que Jesus nos revela:

1. Um Pai que tem uma predileção especial para com os doentes, os pobres, os marginalizados.

2. Um Pai que condena o pecado e deseja a salvação do pecador.

3. Um Pai preocupado com o destino de seus filhos.

4. Um Pai que tem um projeto de vida para seus filhos: a construção do Reino na história dos homens.

5. Um Pai que deve ser adorado pelos filhos: "Nós adoramos o que conhecemos" (Jo 4,24). Ele deseja ser adorado em espírito e verdade (cf. Jo 4,24).

6. Um Pai que reúne os filhos ao redor da mesa para partilhar o pão nosso de cada dia.

7. Um Pai que congrega os seus filhos em comum-unidade (Igreja).

8. Um Pai que alimenta os filhos oferecendo do seu próprio pão: "Meu Pai é que vos doa, do céu, o pão verdadeiro. O pão de Deus é aquele que desceu do céu e doa a vida ao mundo" (Jo 6,32b-33).

9. Um Pai que participa da dor e do sofrimento da humanidade, das suas angústias e esperanças.

10. Um Pai que faz questão em dialogar intimamente com cada um de seus filhos no silêncio da oração.

Deus Pai é para Jesus:

 um Pai misericordioso.

 um Pai que confia nos seus filhos.

 um Pai que ama infinitamente os filhos e por eles tudo faz.

 um Pai paciente e persistente, que espera a conversão dos filhos.

 um Pai presença na vida dos filhos.

 um Pai vigilante e zeloso.

 um Pai exigente.

 um Pai que ama a justiça e a verdade.

 um Pai que não discrimina, acolhe todos.

 um Pai que deseja ver todos os seus filhos unidos formando uma só família.

 um Pai que envolve todos os seus filhos no seu projeto de salvação.

 um Pai que conhece as necessidades de seus filhos.

 um Pai que é plena comunhão trinitária.

Convite à reflexão e meditação:

• Texto proposto: Jo 5, 19-24.

• Questionamentos:

 Qual a experiência que fiz até hoje da paternidade de Deus?

 Que traços da paternidade de Deus percebo mais marcante na minha espiritualidade?

 Sinto-me verdadeiramente amado por Deus Pai?

 Sou apaixonado por Deus Pai como era Jesus?

 Quais as experiências que aceitei a correção amorosa do Pai e que foi para mim conversão, libertação?

 Como vivo na minha comunidade a dimensão da fraternidade como filhos e filhas do mesmo Pai?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

JESUS SENHOR DA VIDA E O PODER DO MAL


A questão da origem do mal ocupou um lugar de destaque no imaginário das sociedades antigas até os dias de hoje. Desde que o homem toma consciência da sua humanidade ele busca compreender essa realidade que ao mesmo tempo transcende sua compreensão e é algo que está presente no mais intimo de sua existência. O homem não pode negar e nem sabe como dominar o mistério do mal. É uma força que está para além de suas possibilidades, de seu poder em dominar as forças ocultas da natureza.

É interessante observar que todo discurso religioso não pode fugir da problemática do confronto entre o bem e mal. A perspectiva teológica do evangelho essênico da paz coloca a problemática da existência do mal e de suas conseqüências negativas para o seu humano, de modo particular para o crente, diante da ação evangelizadora e salvífica de Jesus Cristo:

O texto:
“E então muitos enfermos e paralíticos foram a Jesus, perguntando-lhe: “Se tudo sabes, diga-nos: porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens? Mestre, cura-nos, para que nos façamos fortes e não tenhamos que viver por mais tempo nosso sofrimento. Sabemos que em teu poder está curar todo tipo de enfermidade. Livra-nos de Satã e de todos seus grandes males. Mestre, tem compaixão de nós.”(*)

O texto tenta expor uma interpretação teológica da questão crucial sobre o mal: quem é o autor do mal? Qual a origem do mal? Qual a entidade que representa e mantém o mal agindo no mundo? Quem pode exterminar o mal e deter sua influência? Todas estas questões estão sintetizadas na pergunta dos enfermos e paralíticos: “Porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens?”

Refletindo sobre o evangelho:

E então muitos enfermos e paralíticos foram a Jesus
O evangelho define aqui Jesus como o homem do encontro com os sofredores (enfermos e paralíticos). Ele tem consciência que sua missão é aquela de ir ao encontro, de está aberto sem restrições para os encontros imprevistos, não agendados. Jesus é alguém que deixa espaço para que o seu interlocutor possa tomar a iniciativa do diálogo. Não se apresenta como aquele que já tem respostas prontas, milagres encomendados, fórmulas mágicas e eficazes que resolvem tudo. Jesus está ao alcance dos pobres e sofredores. Ele apresenta-se como um caminho aberto para os homens em direção ao amor misericordioso do Pai.

perguntando-lhe: “Se tudo sabes,
O interlocutor de Jesus inicia o diálogo partindo de um pressuposto: Jesus é mestre de sabedoria, conhece todas as coisas visíveis e invisíveis. Diríamos hoje que ele considera Jesus como alguém que tem um profundo conhecimento das coisas terrenas e espirituais. Portanto, como mestre tem autoridade para opinar sobre qualquer situação humana. Ele conhece os mais profundos anseios, pensamentos, segredos do coração humano.

diga-nos: porque sofremos estas penosas calamidades? Porque não estamos inteiros como os demais homens?
Diante de Jesus procuramos respostas que revelem o homem para ele mesmo: penetrar no mistério de Jesus e de sua missão é adentrar no mistério da existência humana.
Os questionamentos propostos pelos interlocutores de Jesus tocam a essência do mistério do sofrimento humano: o que fizemos de errado, que pecado cometemos para merecer este castigo (penosas calamidades)? Por que devemos viver uma realidade de exclusão e sermos tratados de modo diferente dos outros homens, se na realidade somos todos pecadores? Os enfermos e paralíticos querem sinceramente compreender a sua realidade de deficiência corporal diante da perspectiva da justiça divina. Desejam entender a relação entre as calamidades corporais e a dimensão espiritual destes fatos. Jesus não entra na discussão de causa e efeito do sofrimento.

Mestre, cura-nos,
O poder taumatúrgico de Jesus é incontestável. Ele credencia a sua missão de Filho de Deus através dos sinais que realiza restabelecendo a saúde aos enfermos, e deste modo demonstra a força do seu poder.

para que nos façamos fortes e não tenhamos que viver por mais tempo nosso sofrimento.
Eles querem compreender quem é o responsável que define o tempo que deve durar o sofrimento. Jesus é a esperança de todo sofredor. Só Ele tem o poder de tornar o fraco em forte, o enfermo em são. Ninguém supera ou enfrenta o sofrimento sem Jesus.

Sabemos que em teu poder está curar todo tipo de enfermidade. Livra-nos de Satã e de todos seus grandes males.
Satanás é reconhecido como o autor de todos os males. Deus não é culpado pelo mal que existe no mundo dos homens. Só o homem livre do poder de Satanás pode experimentar a alegria de vida feliz.

Mestre, tem compaixão de nós.”
Diante de Jesus a confissão de fé “tem compaixão de nós” expressa que o caminho de libertação do mal requer da parte do crente a atitude de humildade e confiança absoluta no poder salvador do Filho de Deus. O crente si sente totalmente impotente como ser humano diante do poder do mal. Recorrer à força divina para aplacar a força do mal é a única alternativa possível. Se Deus não vier em socorro do sofredor ele será fatalmente atraído, consumido pelo mal. O coração amoroso do Filho de Deus acolhe todo sofredor para libertá-lo de todos os males.

___________

(*) Este texto faz parte do conhecido evangelho essênico da paz. Este antigo manuscrito se conserva em aramaico, na Biblioteca do Vaticano, e em antigo eslavo na Biblioteca Real dos Habsburgo, atualmente propriedade do governo austríaco. Os antigos textos em aramaico datam do primeiro século depois de Cristo, enquanto que a versão em eslavo é uma tradução literal do texto em aramaico.